Roberto Eduardo da Costa Macedo, nasceu em Santo Tirso, em 14 de Julho de 1887 e faleceu a 19 de Julho de 1977 no Porto.
Filho de Eduardo da Costa Macedo e de Anastácia Cristina de Azevedo Sanches. Casou com Ana Coelho Hargreaves. Narrou histórias, fez poemas e poesias. Publicou vários livros em prosa e verso, os quais alguns serão citados aqui...

OS MEUS VERSOS

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

Os meus versos não são meus!
São um fio delgadinho,
Mais fino que o fino linho,
Da inteligência de Deus!

Sou o espelho unicamente:
Colho a imagem fulgurante
de estrela, de sol ardente,
Milhões de léguas distante.

Como, no búzio, cantando
Vem o mar, seu cavo grito
Anda talvez silabando
Em mim a voz do Infinito.

A frágil haste do trigo
Vibrou ao passar o vento;
Sucede o mesmo comigo.
Sacode-me o pensamento.

Ando, às vezes, distraído
E a ideia sorrateira
Vem-me achar de que maneira!...

E quando os meus versos traço
E os assino, como autor,
Reconheço que não passo 
De receptor-transmissor.

Surge na várzea rasteira
Seara em verde lençol;
E cresce e fica altaneira
E quem a ergueu foi o Sol.

Até ao fundo covil
Do coração mais lapuz
Chega o hálito de Abril,
Vai uma réstia de luz.

O que somos, nesta vida,
Nós o devemos a Alguém
E passamos, de corrida,
Do além para o Além.



CHEIA DE GRAÇA

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

I
Pelo sincero amor que me consagras,
tu és formosa e a todas preferida.
Basta que eu tome essas mãozinhas magras,
para que sejas trémula e vencida.

Mais que eu padeces minhas horas agras,
só vives a pensar na minha vida.
E com tantas virtudes tu me sagras,
que subo a perfeição nunca atingida.

Sei bem que às outras cedo a formosura
as deixará. Porém tua amizade,
se nos der vida Deus, tenho-a segura.

Confia unicamente quem perdoa.
E só perdoa, na totalidade,
quem, como tu, Mulher, é meiga e boa.

II
Tombei do meu cavalo, Batalhando.
É, preso por um pé a um estribo,
me vai ele a galope ainda arrastando.
Todos os sonhos de viver derribo.

Naquele sofrimento formidando,
meu próprio sangue entre a poeira libo
e, entre tanto sofrer, ia pensando:
«Ai, meu Amor, que nunca mais arribo!»

Salvei-me por acaso. O rosto horrendo,
braços partidos, crânio sem cabelo
do meu desastre enorme vão dizendo.

Quantos me vêem fogem com horror.
só para ti, Mulher, ainda sou belo.
Não decresceu em nada o teu amor.

III
Sentada junto aos pés da minha cama,
choravas tu, julgando que eu morria;
pois tinham dito médicos de fama
que certamente não escaparia.

Meu corpo ardia em febre que era chama!
E os olhos só a muito custo abria;
porém (fina meiguice de quem ama)
vi-te sempre um sorriso de alegria.

Para não suspeitar da gravidade
do meu estado, vendo-te chorar,
sorrias...mas sofrendo na verdade.

Nem calculas, Mulher, que imenso agrado
me dá lembrar o teu sorriso santo,
esse sincero choro sufocado.

IV
Ceguei. E, desde então, sem ver teu rosto,
senti nascer em ti novas belezas.
Descobri novo, imenso encanto posto
nesse metal de voz em que me rezas.

Palpando as tuas mãos, vivas surpresas,
nova fortuna achei para meu gosto.
- Olhai: A treva como tem riquezas,
que vós não compreendeis, oh, não, aposto!

Um, sol de cá de dentro me ilumina.
Diviso e cinjo a graça etérea, alada,
que nunca a luz do dia descortina!

Com a doce e gentil realidade
com que te via outrora, minha amada,
agora sei olhar tua amizade.

V
Quem diz que é cego o amor vilipendia.
Ele é artista de alta inspiração.
Desenha e esculpe, à luz, em pleno dia,
o encanto, o elenco, o sonho, a sedução.

Em ti, Mulher, há divinal magia,
doce atrativo que não tem irmão:
- A luz que de mim mesmo se irradia,
o sol do amor, o fogo da ilusão.

Doce mentira ou mística verdade,
do peito mais gelado conhecida,
é a chama de amor, que nos invade.

Acredita, Mulher, é isto assim:
Para que sejas bela nesta vida,
basta que tu sejas para mim.
Santo Tirso, 1916
[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

O ARTISTA

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

Capitalista
de sentimento
e pensamento
- eis o ARTISTA
viva ambição
de execução
com materiais
de seus ideais
é a tortura
em que se apura
Sonhar, achar,
amar, criar
é a aventura
que ele procura.
É na oficina,
dessa alma fina,
que, noite e dia,
com alegria,
que amor ateia,
se lavra a Ideia.
Fafe, 1940

AMOR CONJUGAL

Aquela que diviso nos meus sonhos,
que desenho de cor, de olhos fechados,
que foi meu par nos dias mais risonhos,
que nunca me deixou nos desolados,

Aquela que esperei como Jacob,
nos moldes ao sabor do meu ideal,
graças à qual não fui, no mundo, só,
sem um amor ao meu amor igual,

Aquela que anda tão ligada a mim,
como anda a terra devotada ao mar,
a ponto de fusão, formando, assim,
o globo, o todo, aquilo que era par,

Aquela cujo corpo ao meu lado unido,
é astro global procriador,
de luminosa auréola revestido,
atmosfera de sonhos e de amor,

Jamais de mim, nem só por um momento,
será de corpo ou de alma separada,
enlaça-nos o mesmo pensamento,
percorrer, no Infinito, a mesma estrada.

Quando a cinza dos corpos for misturada,
em que não possa já haver destrinça,
errarão nossas almas pela altura,
campo que Eterno Deus de estrelas inça.
Vila do Conde, Julho de 1967

VENUS IMACULADA

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

Rompi-lhe as vestes negras, abafadas,
primeiro o cisne colo desnudando
e logo os ombros de contorno brando
e o seio casto e as pomas delicadas...

Lembravam minhas mãos as Madrugadas,
quando o noturno manto vão rasgando;
e como é bela e pura a Lua quando
se mostra nua às Noites recatadas!

Assim a Terra é pelo Sol despida;
não há pecado nos milhões de beijos,
beijos de luz que despertam nela a Vida.

É puro o pólen que fecunda a flor;
são sempre imaculados os desejos,
se existe neles verdadeiro Amor.
Coimbra, Junho de 1911

A MENTIRA

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

Com seus pomposos vestidos,
mentira parece um astro
dos mais esclarecidos
e, contudo, tem cadastro;

Tem tal arte a feitiçaria,
tão bem se pinta e afina,
parece ingénua menina.

Se for preciso discurso
sobre importante matéria,
Mentira vem ao concurso
com ar de «senhora séria»;

mas também se não atriga,
se lhe convém a maneira,
de usar navalha na liga
e pistola na algibeira.

Este jeito tão agudo
tornou-a célebre atriz:
Mentira se presta a tudo
e em tudo mete o nariz.

Verão a fé que ela inspira,
afirmando à gente nova
que se engana, que é mentira
o que Mentira reprova.

Digam lá ao poderoso,
a quem ela lisonjeia
e cativa e traz baboso,
que seja a Mentira feia!

Se lho dizeis, sois corridos,
alcunhados de intrigantes,
de patifes, de vendidos,
de pandilhas, de tratantes.

Mentira, Calúnia, Intriga,
Lisonja ou Hipocrisia
são capas em que se abriga,
mantos com que se atavia.

A Mentira é cadastrada,
usa vários apelidos,
sempre bem caraterizada,
sempre a mudar de vestidos!

Tem modos de regateira,
usa navalha na liga
e pistola na algibeira?
É a Calúnia, A Intriga;

Vem de carinha de santa,
de voz meiga e fala pia
e de ternura que encanta?
Chama-se a Hipocrisia.

Mentira sabe viver,
com jeito viver procura;
é amante do Poder
e dá o braço à Fartura.

Mentira tira partido
do seu engenho matreiro,
tal como o lobo vestido
com pele de cordeiro;

É coxa, se ouve dizer,
mas, quando se põe a andar,
nem sempre, mesmo a correr,
ela é fácil de apanhar.

Lá vem um dia a Ciência,
de imortal tenacidade
e de invencível paciência
e proclama a Verdade.

Muitas vezes a Verdade
mora nos mais altos Céus,
não desce à Humanidade,
é privilégio de Deus;

Então aí a Mentira,
achando-se sem rival,
traça, volta, risca, gira,
orgulhosa e triunfal.

Mentira diz triunfante:
«Mentira existe, logo há-de
(Mentira comediante!)
ser a Mentira...Verdade».

Mentira consome a vida
a fingir ser a Verdade
é como mulher perdida
a aparentar castidade.

Mentira toda se vira,
Mentira toda se ajeita,
Mentira toda se enfeita,
mas fica sempre Mentira.

Mentira toda taful,
Mentira toda aparência
é de incógnita ascendência
e afirma ter sangue azul.

Se acaso lhe perguntais,
ao vê-la passar ligeira:
- «Ó Mentira, onde é que vais?»
responde toda lampeira:
- «Vou a casa de meus pais».

Tem sete filhos Mentira,
filhos bem originais;
Estes filhos da Mentira...
...são os pecados mortais.


[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

ZERO

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

Quero,
gero,
mando,
impero,
vou somando
e acho: - ZERO
..........................
..........................
Zero, ovo,
mundo novo,
ventre que gera a unidade,
fonte de toda a verdade,
ponto fiel da balança,
equilíbrio, temperança.

ANSIEDADE

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

No verde Mar se Retratava a Lua;
profundamente dentro dele andava
a imagem dela branca e linda e nua,
tal qual o Mar, decerto, a desejava.

Embora no seu intimo a possua,
a julgue presa como fiel escrava,
não sará daquela febre sua,
daquele amor candente como a lava.

Ondas se elevam como doidos braços,
buscando a viva carnação amada,
mas só palpando o Nada nos espaços.

Ah, pobre Mar, que triste drama vejo:
Ela a fugir de ti morta e gelada,
tu cada vez doido de desejo!

A História mais Bela e mais Sombria

De família modesta, sem dinheiro,
casou-se com humilde carpinteiro.

E tão pobre ficou este casal
que nasceu o seu filho num curral.

O berço deste foi a manjedoura
onde comiam a jumenta e a toura.

De palha solta deram-Lhe o colchão
como se fora a uma ovelha ou cão.

Nunca, até agora, mais modesto abrigo
se dispensou para qualquer mendigo.

Mas este quadro de miséria extrema
é um canto de amor, um doce poema.

Não é por ser nascido num castelo
ou em palácio que se nasce belo

ou que se tem o génio ou o talento,
iman na voz, o sol no pensamento.

A simpatia, a graça, a formosura,
dons afectivos, candidato, ternura,

não fazem privilégio de alta roda,
das damas da nobreza e grande moda.

Dessa pobre Mulher do humilde povo
nasce um Menino que é o Mundo Novo,

a ideia nova, a redenção, a aurora,
a luz do amor, a voz libertadora.


Logo ao nascer era de maravilha


toda a expressão que no seu modesto leito
o crê predestinado a grande feito.

Tanto correu e se espalhou a fama
que até os Reis de muito longe chama

e também veio vê-Lo pressuroso
o tirano, o soberbo, o invejoso,

que logo acharam, para si, perigo
no mísero curral, no humilde abrigo;

que logo, tendo em conta seu regalo,
ao Menino, planearam de matá-Lo,

Mas esta pobre Mãe, triste plebeia,
para o seu Filho todo o mal receia;

Da visita dos maus Ela adivinha
o fim, o vil intuito que continha;

E resolve fugir... espera a noite,
sombra que tudo esconda, onde se acoite;


Numa jumenta cavalgando vai,
com o Filhinho ao colo, aquela Mãe,


levando ao lado atento caminheiro,
como zeloso guarda, o carpinteiro.

Procuram os caminhos mais escusos,
apavorados, trémulos, confusos,

e só pararam atingindo o alvo,
o seu Menino Amado ver a salvo,

quando chegaram a outro país amigo,
onde encontraram protecção e abrigo.

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E o Menino cresceu e correu Mundo
e mais cresceu o seu saber profundo,

pois ainda criança aos mestres espantava,
com as sábias respostas que lhes dava.

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A Força avassalava a maioria,
o povo, a multidão, tudo sofria;

O Senhor tinha mando e privilégio,
e dava e transmitia o poder régio;

Filho de escravo era também escravo,
que podia espremer-se como um favo,

amoldar-se à vontade do senhor,
sem compaixão, sem atender à dor;

O idolatra da força estava em voga,
era o carrasco que vestia a toga.

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Então Esse de humilde nascimento
começou a pregar seu pensamento.

Era belo e incisivo no dizer,
quem o escutasse era incitado a crer.

Discípulos, em breve, conquistava,
sua doutrina mais se propagava.

O sofredor, o pobre, o deserdado
achavam maravilhas no Seu brado.

O tirano, o soberbo, o invejoso
também veio escutá-Lo pressuroso.

Ele exaltava o humilde, o que sofria;
o império de Seu Pai lhe prometia.

Pregava o amor a Deus, Seu Pai Celeste,
e se exprimia sempre em nome Deste:

«Quem não amar, na terra, o semelhante
ofenderá Meu Pai, no mesmo instante»

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E a Mãe no Filho toda se revia,
mas o tirano não adormecia

e novo susto, nova dor a espreita;
ele prepara-lhe a feroz receita:

Entre os amigos de O que prega o Amor,
descobre, encontra o réptil traidor.

O beijo duma boca envenenada
foi o primeiro gesto da cilada.

O beijo denuncia, identifica,
depois surge a chicana, a fraude, a trica;

esbirros são armados em juízos,
a decisão do arbítrio quer raízes,

quer dar-se à burla aspecto de decência,
o traficante joga na aparência.

A causa de principio está julgada,
em bastidor foi a sentença dada,

se pinta a Via Sacra e o Calvário
para servir de fundo no cenário.

A trama urdida só a um fim conduz,
a que se pregue o Justo sobre a cruz.

Aquele que somente amor exprime
se acusa e culpa do mais negro crime;

a gente rica, bem tratada e nédia
nem sequer se apercebe da tragédia;

o povo ladra, no seu louco engano,
cão assolado, a soldo do tirano;

com medo dos terrores, dos castigos,
apavorados fogem os amigos.

Só Ela fica, sem receio a nada,
quer com o Filho ser crucificada.

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A Igreja, velha, sábia e previdente,
todos os anos, infalivelmente,

grita ao rebanho, chamar-lhe à memória
essa tragédia, essa sombria história,

pois nela vive o sentimento amargo
de que anda o lobo farejando ao largo;

para evitar o assalto do inimigo
que é bem preciso reforçar o abrigo,

manter, para o combate ao malefício,
espírito de heroísmo e sacrifício,

se for preciso, transportar a cruz,
saber nela morrer, como Jesus!

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A Mãe que mais amou e mais sofreu,
ao Filho inteiramente consagrada,
em nuvens de almas se elevou ao Céu,
ao som de hinos de Glória e de Alvorada.

Humilde, frágil, filha de plebeu,
com simples carpinteiro era casada,
curral foi a morada onde nasceu
a Vida que Ela viu crucificada.

Atingiu da beleza a plenitude:
Pela escada subiu do sofrimento
ao vértice do amor e da virtude.
Nunca existiu amor tão vivo e atento!
Mães, que supondes vossa empresa rude,
eis montanhas de fé, rios de alento!
Porto, Abril de 1955
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A HISTÓRIA MAIS BELA E MAIS SOMBRIA foi enviada a Sua Santidade o Papa Pio XII, do que resultou:
A SECRETARIA DE ESTADO DE SUA SANTIDADE
cumpre o honroso dever de comunicar que o Santo Padre recebeu com prazer a devotada homenagem acompanhada de expressões de filial veneração pela Sua Augusta Pessoa e, como testemunho de Sua Benevolência, concede de todo o coração a Bênção Apostólica.

Vaticano, 28 de Dezembro de 1955

Ao alto, sob o brasão, lê-se «SECRETARIA DI STATO DI SUA SANTITÁ»

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No envelope lê-se Ex.mo
Roberto Macedo
Rua de Oliveira Monteiro, 823 - PORTO

Ao cimo, vem colado selo postal de 160 com os dizeres:
«POSTE VATICANE» - «745 - 1954 - S. BONIFÁCIO - 
APOSTOLO DELLA GERMANIA
Este selo é inutilizado como dois carimbos com data de 28-12-955 e os dizeres: «POSTE» «DEL VATICANE»



CAMÕES - Filho de Ana Sá e Macedo



Eduardo da Costa Macedo - CAMÕES, filho de Ana Sá e Macedo from Arq. Alberto Costa-Macedo

LUÍS VAZ CAMÕES
Filho de Ana Sá e Macedo

I
Naquela Alma pura e rutilante
Guiada pelos ventos do destino
Havia um Sonho lúcido divino
Com um eco d' amor - harpa distante.

Já ouvia cantar ao longe o hino
Sagrado do futuro; o triunfante
Chamava à sua pátria - a sua amante,
Lendo o céu como um livro sibilino.

Entre no Paço e a nova luz o banha
De uns olhos fulgurosos, luz estranha
Que lhe torna felizes os seus dias.

Não há ainda no azul um traço escuro:
Como é belo sonhar... ver o futuro
Banhado de clarões e de harmonias!

II
Ele saúda o Sol - Astro Bendito
No meio dessa  lúcida grandeza
Que rege do seu trono a Natureza,
Tendo o poder em toda a parte escrito.

E sobre o mar, sonhando nova empresa,
Se a saudade lhe leva o peito aflito,
Acompanha-o das ondas fundo grito
E a Lua no seu manto de tristeza.

Voltam-lhe então dulcíssimas visões:
Começa a inflamar-se a alma de Camões
Inspirada no poema universal.

Eis por fim em seu livro a nossa gloria:
Já que o deixou morrer entregue à História.
Erga-o e celebre-o hoje Portugal.
POEMA
 DE
EDUARDO DA COSTA MACEDO
PARA AS
FESTAS DO 3 CENTENÁRIO DE CAMÕES
Homenagem dos POETAS
Palácio de Cristal
Porto, 27 de Março de 1880
PORTUGAL

CANTIGAS






















[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

Cantigas,
quero cantigas,
que não contenham cicuta,
que não mordam como ortigas,
que me não lembrem a luta,
a labuta
dos duros dias da vida
com seio que não coite
aquele afã,
essa lida,
que vai de manhã
à noite.
Quero romance risonho
quero cantigas de amor,
quero cantigas de sonho,
quero cantigas em flor.
Poesia escrita, possivelmente,
entre 1930-1940

O AMOR

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

Ao penetrar na jaula a bela domadora,
Sacude-se o chicote, em suas mãos, nervoso.
E a fera (leão altivo) humilde e sofredora
Até ao chão abate o corpo musculoso,
Ao penetrar na jaula a bela domadora!

Ao ver junto a seus pés o leão triste e humilhado,
Retesa altivamente o corpo fino e belo,
E ergue a cabeça loira olhando-o a ele de lado...
E toda a gente adora essa estátua de gelo,
Ao ver junto a seus pés o leão triste e humilhado!

Aquela deusa linda e vaporosa e fria
De novo ergue o chicote e, castigando a fera,
Contempla-a com prazer e um ar de fidalguia,
Enquanto o leão parece olhar com dor sincera
Aquela deusa linda e vaporosa e fria.

O leão, o rei do bosque, o amante heróico e bravo,
Aquele que matava e trucidava dantes,
Agora está mudado, é simplesmente escravo!
Tem um feroz senhor nuns olhos faiscantes
O leão, o rei do bosque, o amante heróico e bravo.

Sentiu, porem, um dia, a humilhação mordê-lo;
Nas garras a tomou irado e vingativo
E os dentes lhe cravou no peito tenro e belo,
O amante mais devoto, o humilhado cativo!...
Sentiu, porém, um dia, a humilhação mordê-lo.

Correu pela assistência um frémito de dor,
ao ver o leão lançar-se à linda rapariga,
Cravando-lhe no peito os dentes com furor.
Sentindo o leão voltar à sua fúria antiga,
Correu pela assistência um frémito de dor.

O frio coração da bela domadora
calcou sempre no herói as suas ânsias lidas,
Porém na arena jaz ela vencida agora.
Golfando sangue, lembra um fogo em labaredas
O frio coração da bela domadora!
Coimbra, março de 1910

AS MARGARIDAS

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

Ainda o Inverno perdura,
desalmado fevereiro,
já Primavera a moldura
talha, alinhando o canteiro,
o canteiro do jardim,
com tão brancas margaridas,
que até me parece a mim
do Céu chegarem descidas,
a trazerem a promessa:
- de acariciante calor,
de ninho que se começa,
de carinhos e de amor.

E meus olhos, que tal viram,
levaram-me ao coração
a caricia que sentiram.
Não o fizeram em vão:
- Nascem lembranças e sonhos,
em velhos tempos imersos,
mais rosados que medronhos...
... e encontro-me a fazer versos.
Porto, fevereiro de 1959

MEU IDEAL

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

I
Tu julgas que eu não sofro, coitadinha,
- como és ingénua e deste mundo alheia! -
porque em meu livro apenas se adivinha
toda a ventura que a minha alma anseia.

Julguei a minha sorte tão mesquinha,
que, como bom artista, desprezei-a.
A força que descrevo não é minha,
a crença, vendo-a noutrem, cobicei-a.

Pintei não o que sou, mas meus desejos.
Sou novo e bem preciso dos teus beijos,
sou triste, necessito dum consolo.

Ó meu Amor, meu Bem, não sei mentir,
Dá-me promessas dum feliz porvir,
Deixa-me que enleie os braços no teu colo.

Novembro de 1912

II
Pintei-me forte como quero ser;
ama-me triste e débil como sou;
pois foi para adoçares meu sofrer
que a Natureza, filha , te criou.

A menor dor me custa a padecer;
tão alto o meu orgulho me levou!
Mas Deus, ao dar ao Homem a Mulher,
de todo, para sempre, o consolou:

Darei por bem empregue todo o pranto,
se tuas finas mãos forem depois
secar-me os olhos, com afago santo.

Na Vida, que ainda agora principio,
vamos, sigamos, sempre a par, os dois.
- dar-me há, na luta, o teu amor, mais brio.


Santo Tirso, Janeiro de 1913


TEUS SEIOS

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo] 

De tanto os ver arfar, arfar, arfar...
- quando os meus olhos a mirar-te quédo -
os teus seios me fazem recordar
dois pombos novos a tremer de medo,
que fugir tentam... sem poder voar.

São o altarzinho, Virgem sem pecados,
que tanto olhar enamorado  atrai;
teus seios são os frutos delicados
que, tão somente quando sejas mãe,
poderei ver de todo sazonados.

E tão puros até, que o próprio Deus
os não destina as bocas venenosas.
Ele os criou para os filhinhos teus
com lábiozinhos tenros como rosas,
com o candor dos querubins dos Céus.

Por isso, meu Amor, depressa, vem,
vem a meus braços, dá-te por isso vencida;
que havemos de vivera mesma vida
e que teus filhos serão meus também.

Ânforas cheias de preciosos vinhos!
teus seios - dias ondas de desejos -
são como dois emplumes passarinhos
que para o cibo - meus ardentes beijos -
cheios de fome estendem seus biquinhos.

MOEDA AMOR

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

Quem tem a moeda Amor
tem a riqueza mais cara,
a sua arca é uma ara,
possui o maior valor.


Só a Alma, quando vibra,
é a sua fundição
e tem maior cotação
do que o dólar ou a libra.


Arrecada esse tesouro,
porque to podem roubar.
Essa moeda sem par
vale mais que prata e oiro.


Os ladrões andam à solta,
a manobrar pelo escuro,
nenhum tesouro é seguro...
depressa a sorte se volta.


Nossa Senhora Roubada
tem sete espadas no peito;
assim, quem ama é sujeito
a ter vida torturada.


E Jesus Nosso Senhor,
o imaculado Jesus,
foi pregado sobre a cruz
só por ser o Rei do Amor.


Lágrimas de Amor não vêm
apurar ao canto dos olhos;
cristalizam entre abrolhos,
o coração as detém.


Correr por Amor não cansa;
quero, amando, envelhecer...
Morrer de amor é viver,
quem ama é sempre criança.


Martírios de Amor! Quem há-de
condenar-lhe os desvarios,
se ele corre, como os rios,
para o Mar...da Santidade!



Porto, Portugal, 19...

AS MÃOS

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]


As duas mãos
Talhadas como irmãos,
entrelaçadas,
casadas,
unidas,
erguidas,
nas orações,
são, penso ao vê-las,
creio, ao ergue-las,
dois corações.

E no labor
lançadas,
acasaladas,
são o amor,
amor fecundo
e construtor
renovador
do Mundo!

SENHORA MÃE

Aqueles que, nos seus peitos,
beberam amor e vida
estão agora homens feitos.

Foi o seu ventre guarida
primeira desses gigantes
agora em luta aguerrida,
em ânsia e sonho constantes
de acharem novos destinos,
mudados do que eram de antes,
dos seus tempos de meninos,
rebeldia e destinos.

Quanto amor, quanta paciência
e quanta luta e canseira
 a dar-lhes independência,
desde a hora feiticeira
em que o filho vem à luz,
em que mostra a vez primeira,
à Mãe, que o toma nos braços,
bendizendo a sua cruz.

Aqueles divinos traços
de seu rosto de menina
 foram-se tornando baços...
Aquela elegância fina,
que tinha, mesmo aos cinquenta,
precipitou-se na ruína.

Mas que brilho agora ostenta
essa cabeça nevada!
Novo, encanto se cimenta,
que é, sem dúvida, alvorada!

Cercam-na puros amores,
lábios que gritam por ela,
sinceros admiradores,
olhos a acharem-na bela,
em  coro sempre a crescer
e a subir para uma estrela,
porque se eleva o seu ser
cada vez para mais alto,
mais alto no resplender...
Já não caminha no asfalto,
o Céu alcança num salto,
um coro de anjos a chama.

Tem hoje mais quem lhe diga
palavra ternas de amor
do que ouviu em rapariga.

Gravitam ao seu redor
- da esposa, da mãe, da avó -
o beijo, o riso, a flor,
Do risco de ficar só
ela agora não partilha,
tudo inspira menos dó.

Ao templo conduz a filha,
a noiva que vai casar;
E, com majestade, brilha,
respeitável, posta a par
do seu passado amoroso,
do seu distante sonhar.

Ante a aguardar receoso
da parturiente, no leito,
ela espera o intimo gozo
de achegar tranquila, ao peito,
um sadio e belo neto,
bem segura do seu jeito.
E, assim, um passo discreto
novo, fervoroso afecto.

É quando a idade lhe veda
continuar a ser fecunda
que, em vez de ingressar em queda,
sobe, cresce, alastra, inunda,
em rio, em mar, a família,
que, em sangue e amor se funda,
com jus a fervente homilia.
Porto, Portugal, Verão 1958

AVANTE!

A Humanidade ansiosa,
impaciente e nervosa,
acha noite tormentosa
este século presente.

Um futuro mais ridente,
uma vida mais formosa,
mais cómoda e luxuosa,
mais barata e bonançosa
- eis a visão cor de rosa
da Humanidade ansiosa.

Nessa ambição de progresso
(minha túnica de Nesso)
também eu não arrefeço.

Ao ideal me arremesso;
à Ciência tudo peço;
não sei andar ao avesso;
dos que param me despeço.

Amo a cidade brilhante,
o movimento constante,
ordenado e perturbante
da multidão ofegante.

Adoro a vida frenética,
a onde a corrente eléctrica
invisível e possante
arrasta o carro gigante
e pela noite horrorosa
espalha luz copiosa.

Desejo a velocidade
e tenho ânsias de altura
a serra orgulhosa e dura
e à fulgante claridade
que afugenta a noite escura
e policia a cidade.

Bendigo a locomotiva,
que marcha veloz a activa,
numa avançada festiva,
sobre a milha humilde e esquiva,
que nuns segundos cativa,
esmagando-a imperativa,
e logo acha despreziva,
deixando-a, a trás, fugitiva.

Exalto o braço colosso
do poderoso motor
no seu contínuo vigor
e inalterável esforço.

Exalto o braço colosso
do poderoso motor,
concepção de homens astutos,
de engenhos extraordinários,
que supre mil operários
e embaratece os produtos.

Deslumbra-se o avião,
elevando-se do chão;
com ele meus olhos vão
e também meu coração
a pairar na Imensidão.

Sobe mais minha razão,
meus sonhos mais subirão,
sobe mais minha ilusão.

Gente moça e aguerrida,
fresca e alegre Mocidade,
tem mil segredos a Vida,
porém não cesses na lida,
não quedes desiludida
de achar um dia a Verdade.

Não pares nem um bocado:
é pequena a Humanidade
e o Progresso ilimitado!

Nesta marcha de ansiedade,
estou sempre no meu peito
a febre de novidade
o sonho do mais perfeito.

Não pares nem um instante.
Marchemos! Avante! Avante!
Sátão, 1919

A INJUSTIÇA

Todos pedem Justiça, todavia
o tesouro moral da Humanidade
sem a Injustiça não existiria.

O rio que transborda, a água que invade
os campos marginais, dano causando,
é que lhe dá verdor, fertilidade.

Só a Virtude tem realce quando
pecado ou tentação a põe à prova
e a pretende arrastar no seu comando.

Atirada a semente para a cova,
com lodo ou com adubo misturada,
nos dá a planta, uma promessa nova.

E se melhor exemplo se procura,
em Sócrates, Jesus ou Joana d'Arc
se vê logo a Injustiça de moldura,

ser compelido a violento embarque
se cicuta, na cruz, sobre a fogueira,
aquele que por justo ou sábio marque.

Se não fora o abismo a cachoeira
não se formava, não existiria,
nem a montanha era tão altaneira.

Convém rever esta filosofia.
Antes de condenar é bem preciso
achar o senso exato da harmonia;
de contrário, errareis vosso juízo.
Porto, Agosto de 1951