Roberto Eduardo da Costa Macedo, nasceu em Santo Tirso, em 14 de Julho de 1887 e faleceu a 19 de Julho de 1977 no Porto.
Filho de Eduardo da Costa Macedo e de Anastácia Cristina de Azevedo Sanches. Casou com Ana Coelho Hargreaves. Narrou histórias, fez poemas e poesias. Publicou vários livros em prosa e verso, os quais alguns serão citados aqui...

Páginas

FLORES

Erguidas entre as finas mãos das plantas,
rescendentes de mística beleza,
as flores são as hostis sacrossantas,
carnes e sangue de Máter-Natureza.

Fabricam-nas com tal delicadeza
forças ocultas, celestiais e santas,
que lembram traduções de etérea reza
que sonho ouvir de angélicas gargantas.

Sacerdotisa envolta em verde manto,
ó planta, expõe, aos povos, altaneira,
as flores (graça pura, excelso encanto):

- São hostis, para os olhos que pecarem
aurirem delas a pureza inteira,
para os meus olhos crentes comungarem.

Santo Tirso, 1914

Homenagem a Thomas Hargreaves, sogro de Roberto E. Costa Macedo

Thomas Hargreaves
04-05-1851
Santo Tirso
23-01-1920

Vavasseur, Hargreaves e Costa

Fabrica de Fiação e Tecidos de Santo Thyrso

"TEMPUS PERDIDI" - O TEMPO PERDIDO

Levei a arquitetar, no meu passado,
Uma torre de sonhos e quimeras,
E lá dentro, na torre, como feras.
Prendi os meus desejos com cuidado.

Numa aureola de amor, inebriado,
Meu coração, perdeu-se, nessas eras,
Em Loiras fantasias, primaveras
Cheias de flor, num sonho embalsamado.

Um dia despertei; olhando o mundo,
Perdi a fantasia; diante de meus olhos
Havia um longo abismo negro e fundo.

E o meu olhar chorava! hoje sorri:
É que num roseiral transformo abrolhos;
Pasmado só - do tempo que perdi!
Coimbra, 1907

O EGRÉGIO PROFESSOR

Traçando as feições do Lente,
e aluno compõe binómio
dos termos santo e serpente
ou divindade ou demónio.

Do urso ao cábula varia
do binómio o resultado:
o elogio, a simpatia
ou o rancor declarado.

Mas este, sem divergência,
no revela, à saciedade,
o saber e inteligência
enlaçados na bondade;

Face de linhas corretas
e de sorriso aliciante
é como espelho do esteta,
do prosador elegante.

Vinci falava certeiro,
expondo a alma construtora
a modelar, como o oleiro,
do interior e para fora.

Nunca foi o Padre Eterno
do Olimpo professoral,
foi o Professor moderno
sem prosápia de Imortal;

Nunca usou de estilo enfático
de enfatuada realeza,
pôs no ensino senso prático,
uma expressão de clareza;

Era tanta essa clareza,
que até o menos astuto
se acercava de certeza,
se convencia de arguto;

Calmamente, sem ferir,
sem rispidez ou violência,
possuía o condão de abrir
as portas da inteligência;

Neste límpido sentido
se achava o melhor provento,
o aluno mais distraído,
sem querer estava atento.

Guia sábio e desvelado
ele foi o bom pastor,
que, em vez de usar o cajado,
se fez seguir por amor;

Em vez da fúria dos hunos
de humilhações e desrespeito,
despertava nos alunos,
admiração e respeito.

Não deu a mão à sebenta,
pois em livros escreveu
sua ciência suculenta,
quanto destes consta é seu.

E, nas aulas, essa ciência
ministrou diretamente
com equilíbrio e paciência
sem carater de assistente.

São ensinamentos tais
de sólidas, fundas raízes,
que sobem aos Tribunais
e fornecem luz aos Juízes.

Com estas sábias lições
o resultado está feito:
mínimo-reprovações;
quanto ao máximo-o proveito.

E reciproca amizade,
nesta esfera acolhedora,
nasce na Universidade
e perdura a vida toda.

Todo se deu ao ensino
de alma, vida e coração
com a exaltação de um hino,
a crença de uma oração;

Sempre firme, sempre atento,
nunca abandonou a liça,
no sublime pensamento
de abrir caminho à Justiça.

Sem nunca ter sido fera,
para os homens de amanhã,
como Professor impera
na Cátedra Coimbrã.

Ao juvenil Professor
vaidoso, duro e silvestre,
de chicote, à domador,
aponto o exemplo do Mestre.

A todo o cultor de leis
merece o mais alto preito
José Alberto dos Reis;
Mestre e Doutor de Direito,

ao perfazer os oitenta,
se revela tão afoito,
tal brilho mental ostenta,
que parece ter vinte oito.

Com toda a sinceridade,
quisera esculpir melhor,
com brilho de mocidade,
vivacidade e calor.

Mas desculpe-se a pobreza
do cinzel do estatuário;
Por certo a idade lhe pesa,
é quase septuagenário
Porto, 1955

O MEU SORRISO

O Poeta passou por mim um dia
e perguntou porque sempre sorria

e eu respondi-lhe... respondi sorrindo
e, moço e sonhador, fui prosseguindo.

Passou o tempo... e o Poeta faleceu
e o meu cabelo loiro embranqueceu;

mas hoje em meu ouvido ressoou
essa pergunta que ele formulou.

Será acaso permitido ao velho
rever-se olhando o seu antigo espelho,

outra vez moço?

 A aurora vespertina
tem o rubro clarão da matutina;

nem a rosa da linha Primavera
sobre a do Outono em cor e graça impera;

e o sonho, o amor, a fé, a ansiedade
são sentimentos que não têm idade.

Mas, Poeta amigo, em que pensava eu?
Naquilo que tu pensas lá no Céu.

Viste por ti passar sorrindo um anjo
da Terra estranho a todo o humano arranjo,

a todo o humano arranjo cá da Terra
agora em fúria, em truculenta guerra.

Vê: - Nero e Tigelino num braseiro
acabam de lançar o Mundo inteiro

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E eu pensava, que viria
bem cedo aquele prometido dia

em que os homens deviam dar-se as mãos,
trocar-se as mãos, amar-se como irmãos,

dessa aliança purpurina e sã
que se desenha na visão cristã.

E eu pensava estar certo de que a esfera
é mais veloz e forte do que a fera;

que na alavanca há menos valimento
do que no bem polido rolamento;

que melhor cura a chaga o emoliente
do que a tenaz em brasa, o ferro ardente;

que a palavra de amor, sendo bem dada,
quebra a lança, o punhal e vence a espada;

que os impérios da força duram pouco,
são máquinas forjadas por um louco,

pois a razão equilibrada guia
dentro das sábias regras da harmonia,

não marcham em estampidos de revolta,
sem fé, com desatino, à rédea solta;

em doce e progressiva evolução
é que se lança a nova construção.

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E apesar das agruras do presente,
mantenho, no meu peito, renitente,

o sonho antigo... e, com fervor, insisto
em crer na bela previsão de Cristo.


Eis, Poeta amigo, como te preciso
o motivo, a razão do meu sorriso.


À memória de António Sardinha

DESEJADA




Tens sido para mim somente a Desejada,
pois nunca a minha face aproximei da tua.
O meu amor ideal é a luz da Luz,
da Lua que ilumina e não aquece nada.

Apenas surges tu - visão etérea, alada,
na sombra que me cerca, inteiramente nua,
a luz do teu olhar sobre a minha alma actua,
deixando-a de visões e sonhos povoada.

Nudez que ninguém mais descobre ou adivinha!
Nem sabes tu, meu Bem, com quanto ardor te quero,
sabendo que és só minha, e toda, toda minha.

E nunca a tua carne em minhas mãos agarro!
- É porque Deus (vê lá que belo sonho gero!)
Não soube traduzir, minha visão, em barro.

Parabéns, Isabel Porto

Meio século, minha amiga,
Cinquenta anos, dispostos;
Com cor, alegria e magia,
Sonhos feitos e desfeitos

Hoje és cinquentenária.
Madura, experiente;
Solucionarás astutamente,
os problemas de forma feiteira.

Isabel, mais décadas te esperam;
É bom sermos amigos ligados.
Novos obstáculos te espreitam;
Ao teu lado estaremos encostados.

Desejamos-te para esta nova etapa,
o maior sucesso e sorte na vida
e um lustre radioso para a tua nova estrada;
Muitos Parabéns, nossa Amiga querida.

Porto, dezembro 2015
Teresa e Alberto Costa Macedo

A CRIANÇA

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

A música de um rádio esvai-se da taberna,
espalha-se na rua estreita e mal calçada;
é compasso, talvez, de uma dança moderna,
talvez ária de amor, febril, apaixonada.

Com dois anos ou três, vestida cor de rosa,
de bracinhos ao ar, uma menina dança,
tão linda, tão gentil, tão pura, tão graciosa,
que toda a gente pára a mirar-se na criança.

O seu corpo volteia, os seus braços são asas,
seus pequeninos pés estão pisando flores,
em roda surge, em vez das mais humildes casas,
parede palaciana embriagante de cores.

Esta criança transforma a pobreza em riqueza,
adoça alegremente aquele ambiente triste,
o que é sórdido morre ante a sua pureza,
só ela, ela somente, ali impera e existe.

Ao som daquele rádio, a criança ingénua e calma,
dançando, nos conduz ao sobrenatural,
a ser apenas sonho, a ser apenas alma,
a viver para além de este mundo mortal.

Já não se escuta a rádio, a música é divina;
a taberna sumiu-se, há um portal do Céu;
é um Anjo-de-Deus a forma menina;
da sideral mansão, até ali, desceu.
Porto, Estio de 1959

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

AO ROBERTO MACEDO


R essaltam de teus poemas
Ó poeta consagrado!
B eleza - , graças amenas -;
E ao contares o teu passado,

R evelas o que hás sofrido
T rovador de canções belas!
O sentir do que hás perdido!
as eu vejo em todas elas,

A is dum Amor que inda dura,
C antares alegres -, dispersos -,
E entre afectos e ternura.
D eixas ver em lindos versos,

O que hoje é, tua ventura
JAZELINO

ESPIRITO MOÇO

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

Duas meninas de outras eras,
que outrora foram primaveras,
passam por mim garridamente,
rindo e pensando, certamente,
que este rapaz do tempo delas,
freme de amor ainda ao vê-las!
Todas janotas e pintadas,
são juventudes simuladas.

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

Mas eu, que as tinha já na cova,
estou a olhar para uma nova,
fresca e formosa rapariga,
que vai passando e não me liga.
Canta cá dentro a voz do poeta,
meus olhos têm senso de esteta,
oiço trinar o rouxinol,
me acaricia a luz do Sol,
nada me doí, ando ligeiro,
tenho no bolso algum dinheiro.

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

Como  ainda fremo! E a ilusão
acelerou meu coração!
Eis chego a casa e olho o espelho:
Meu Deus! Meu Deus, como estou velho!
Diz-me uma voz consoladora:
- «NOVO POR DENTRO, VELHO POR FORA».
Porto, 19 de Setembro 1950

MEU AMOR

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

Em negra noite eu era mergulhado
e no meu peito ia um pesar profundo,
Então, buscando o Sol ambicionado,
fui-me, a correr, a dar a volta amo mundo.

Porém depressa me encontrei cansado,
roto e faminto como um vagabundo,
até cair descrente e desmaiado
inutilmente sobre o chão imundo.

Vendo-me alguém naquele desconforto,
havia de supor que me ferira
algum bandido e me deixara morto.

Mas, quando meu desmaio teve fim,
eu vi, olhando o Céu cor de safira,
que a boa luz do Sol vinha até mim.

O FADO DOCE ENGANO

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

Canta, canta, canta, canta,
o cantar rejuvenesce:
é cantando que se espanta
a tristeza, que envelhece.

Que vá tua alma elevada
por nuvens da fantasia,
em Céu de rósea alvorada,
em asas de alava poesia.

Sonhando, a capa e batina
enverga, volta aos «gerais»,
recorda-me essa menina
outrora dos teus ideais.

Esta palavra «gerais»
está dizendo irmandade,
que fomos todos iguais,
cursando a Universidade.

Todos moços, todos belos,
de passo rijo e seguro,
todos erguemos castelos,
mirando loiro futuro.

Na minha alma, fazer ninho
veio a pomba da saudade,
sonhei seguir o caminho
de regresso à mocidade.

à «Porta Férrea» te espero,
moço cheio de ambições,
sou João de Deus, sou Antero,
sou o Luís Vaz de Camões.

A «Porta Férrea» é açude
da ribeira estudantil,
do rio da mocidade,
do rio de luz de Abril.

vive em permanente enredo
quem tudo e nada receia...
da bomba atómica o medo
não perturbe a tua ideia.

Estou em crer que não erra
Jean Cassou, que anuncia
que de novo até à Terra
os poetas virão um dia.

Dedilha, Xico Menano,
na tua esbelta guitarra,
«O Fado do Doce Engano»
a que nossa alma se agarra.

E arranja-me um cantador,
com garganta e sentimento,
que às palavras dê calor
e as eleve ao Firmamento.
Porto, Junho de 1964

OS MEUS VERSOS

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

Os meus versos não são meus!
São um fio delgadinho,
Mais fino que o fino linho,
Da inteligência de Deus!

Sou o espelho unicamente:
Colho a imagem fulgurante
de estrela, de sol ardente,
Milhões de léguas distante.

Como, no búzio, cantando
Vem o mar, seu cavo grito
Anda talvez silabando
Em mim a voz do Infinito.

A frágil haste do trigo
Vibrou ao passar o vento;
Sucede o mesmo comigo.
Sacode-me o pensamento.

Ando, às vezes, distraído
E a ideia sorrateira
Vem-me achar de que maneira!...

E quando os meus versos traço
E os assino, como autor,
Reconheço que não passo 
De receptor-transmissor.

Surge na várzea rasteira
Seara em verde lençol;
E cresce e fica altaneira
E quem a ergueu foi o Sol.

Até ao fundo covil
Do coração mais lapuz
Chega o hálito de Abril,
Vai uma réstia de luz.

O que somos, nesta vida,
Nós o devemos a Alguém
E passamos, de corrida,
Do além para o Além.



CHEIA DE GRAÇA

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

I
Pelo sincero amor que me consagras,
tu és formosa e a todas preferida.
Basta que eu tome essas mãozinhas magras,
para que sejas trémula e vencida.

Mais que eu padeces minhas horas agras,
só vives a pensar na minha vida.
E com tantas virtudes tu me sagras,
que subo a perfeição nunca atingida.

Sei bem que às outras cedo a formosura
as deixará. Porém tua amizade,
se nos der vida Deus, tenho-a segura.

Confia unicamente quem perdoa.
E só perdoa, na totalidade,
quem, como tu, Mulher, é meiga e boa.

II
Tombei do meu cavalo, Batalhando.
É, preso por um pé a um estribo,
me vai ele a galope ainda arrastando.
Todos os sonhos de viver derribo.

Naquele sofrimento formidando,
meu próprio sangue entre a poeira libo
e, entre tanto sofrer, ia pensando:
«Ai, meu Amor, que nunca mais arribo!»

Salvei-me por acaso. O rosto horrendo,
braços partidos, crânio sem cabelo
do meu desastre enorme vão dizendo.

Quantos me vêem fogem com horror.
só para ti, Mulher, ainda sou belo.
Não decresceu em nada o teu amor.

III
Sentada junto aos pés da minha cama,
choravas tu, julgando que eu morria;
pois tinham dito médicos de fama
que certamente não escaparia.

Meu corpo ardia em febre que era chama!
E os olhos só a muito custo abria;
porém (fina meiguice de quem ama)
vi-te sempre um sorriso de alegria.

Para não suspeitar da gravidade
do meu estado, vendo-te chorar,
sorrias...mas sofrendo na verdade.

Nem calculas, Mulher, que imenso agrado
me dá lembrar o teu sorriso santo,
esse sincero choro sufocado.

IV
Ceguei. E, desde então, sem ver teu rosto,
senti nascer em ti novas belezas.
Descobri novo, imenso encanto posto
nesse metal de voz em que me rezas.

Palpando as tuas mãos, vivas surpresas,
nova fortuna achei para meu gosto.
- Olhai: A treva como tem riquezas,
que vós não compreendeis, oh, não, aposto!

Um, sol de cá de dentro me ilumina.
Diviso e cinjo a graça etérea, alada,
que nunca a luz do dia descortina!

Com a doce e gentil realidade
com que te via outrora, minha amada,
agora sei olhar tua amizade.

V
Quem diz que é cego o amor vilipendia.
Ele é artista de alta inspiração.
Desenha e esculpe, à luz, em pleno dia,
o encanto, o elenco, o sonho, a sedução.

Em ti, Mulher, há divinal magia,
doce atrativo que não tem irmão:
- A luz que de mim mesmo se irradia,
o sol do amor, o fogo da ilusão.

Doce mentira ou mística verdade,
do peito mais gelado conhecida,
é a chama de amor, que nos invade.

Acredita, Mulher, é isto assim:
Para que sejas bela nesta vida,
basta que tu sejas para mim.
Santo Tirso, 1916
[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

O ARTISTA

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

Capitalista
de sentimento
e pensamento
- eis o ARTISTA
viva ambição
de execução
com materiais
de seus ideais
é a tortura
em que se apura
Sonhar, achar,
amar, criar
é a aventura
que ele procura.
É na oficina,
dessa alma fina,
que, noite e dia,
com alegria,
que amor ateia,
se lavra a Ideia.
Fafe, 1940

AMOR CONJUGAL

Aquela que diviso nos meus sonhos,
que desenho de cor, de olhos fechados,
que foi meu par nos dias mais risonhos,
que nunca me deixou nos desolados,

Aquela que esperei como Jacob,
nos moldes ao sabor do meu ideal,
graças à qual não fui, no mundo, só,
sem um amor ao meu amor igual,

Aquela que anda tão ligada a mim,
como anda a terra devotada ao mar,
a ponto de fusão, formando, assim,
o globo, o todo, aquilo que era par,

Aquela cujo corpo ao meu lado unido,
é astro global procriador,
de luminosa auréola revestido,
atmosfera de sonhos e de amor,

Jamais de mim, nem só por um momento,
será de corpo ou de alma separada,
enlaça-nos o mesmo pensamento,
percorrer, no Infinito, a mesma estrada.

Quando a cinza dos corpos for misturada,
em que não possa já haver destrinça,
errarão nossas almas pela altura,
campo que Eterno Deus de estrelas inça.
Vila do Conde, Julho de 1967

VENUS IMACULADA

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

Rompi-lhe as vestes negras, abafadas,
primeiro o cisne colo desnudando
e logo os ombros de contorno brando
e o seio casto e as pomas delicadas...

Lembravam minhas mãos as Madrugadas,
quando o noturno manto vão rasgando;
e como é bela e pura a Lua quando
se mostra nua às Noites recatadas!

Assim a Terra é pelo Sol despida;
não há pecado nos milhões de beijos,
beijos de luz que despertam nela a Vida.

É puro o pólen que fecunda a flor;
são sempre imaculados os desejos,
se existe neles verdadeiro Amor.
Coimbra, Junho de 1911

A MENTIRA

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

Com seus pomposos vestidos,
mentira parece um astro
dos mais esclarecidos
e, contudo, tem cadastro;

Tem tal arte a feitiçaria,
tão bem se pinta e afina,
parece ingénua menina.

Se for preciso discurso
sobre importante matéria,
Mentira vem ao concurso
com ar de «senhora séria»;

mas também se não atriga,
se lhe convém a maneira,
de usar navalha na liga
e pistola na algibeira.

Este jeito tão agudo
tornou-a célebre atriz:
Mentira se presta a tudo
e em tudo mete o nariz.

Verão a fé que ela inspira,
afirmando à gente nova
que se engana, que é mentira
o que Mentira reprova.

Digam lá ao poderoso,
a quem ela lisonjeia
e cativa e traz baboso,
que seja a Mentira feia!

Se lho dizeis, sois corridos,
alcunhados de intrigantes,
de patifes, de vendidos,
de pandilhas, de tratantes.

Mentira, Calúnia, Intriga,
Lisonja ou Hipocrisia
são capas em que se abriga,
mantos com que se atavia.

A Mentira é cadastrada,
usa vários apelidos,
sempre bem caraterizada,
sempre a mudar de vestidos!

Tem modos de regateira,
usa navalha na liga
e pistola na algibeira?
É a Calúnia, A Intriga;

Vem de carinha de santa,
de voz meiga e fala pia
e de ternura que encanta?
Chama-se a Hipocrisia.

Mentira sabe viver,
com jeito viver procura;
é amante do Poder
e dá o braço à Fartura.

Mentira tira partido
do seu engenho matreiro,
tal como o lobo vestido
com pele de cordeiro;

É coxa, se ouve dizer,
mas, quando se põe a andar,
nem sempre, mesmo a correr,
ela é fácil de apanhar.

Lá vem um dia a Ciência,
de imortal tenacidade
e de invencível paciência
e proclama a Verdade.

Muitas vezes a Verdade
mora nos mais altos Céus,
não desce à Humanidade,
é privilégio de Deus;

Então aí a Mentira,
achando-se sem rival,
traça, volta, risca, gira,
orgulhosa e triunfal.

Mentira diz triunfante:
«Mentira existe, logo há-de
(Mentira comediante!)
ser a Mentira...Verdade».

Mentira consome a vida
a fingir ser a Verdade
é como mulher perdida
a aparentar castidade.

Mentira toda se vira,
Mentira toda se ajeita,
Mentira toda se enfeita,
mas fica sempre Mentira.

Mentira toda taful,
Mentira toda aparência
é de incógnita ascendência
e afirma ter sangue azul.

Se acaso lhe perguntais,
ao vê-la passar ligeira:
- «Ó Mentira, onde é que vais?»
responde toda lampeira:
- «Vou a casa de meus pais».

Tem sete filhos Mentira,
filhos bem originais;
Estes filhos da Mentira...
...são os pecados mortais.


[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

ZERO

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

Quero,
gero,
mando,
impero,
vou somando
e acho: - ZERO
..........................
..........................
Zero, ovo,
mundo novo,
ventre que gera a unidade,
fonte de toda a verdade,
ponto fiel da balança,
equilíbrio, temperança.