Roberto Eduardo da Costa Macedo, nasceu em Santo Tirso, em 14 de Julho de 1887 e faleceu a 19 de Julho de 1977 no Porto.
Filho de Eduardo da Costa Macedo e de Anastácia Cristina de Azevedo Sanches. Casou com Ana Coelho Hargreaves. Narrou histórias, fez poemas e poesias. Publicou vários livros em prosa e verso, os quais alguns serão citados aqui...
SENHORA MÃE
Aqueles que, nos seus peitos,
beberam amor e vida
estão agora homens feitos.
Foi o seu ventre guarida
primeira desses gigantes
agora em luta aguerrida,
em ânsia e sonho constantes
de acharem novos destinos,
mudados do que eram de antes,
dos seus tempos de meninos,
rebeldia e destinos.
Quanto amor, quanta paciência
e quanta luta e canseira
a dar-lhes independência,
desde a hora feiticeira
em que o filho vem à luz,
em que mostra a vez primeira,
à Mãe, que o toma nos braços,
bendizendo a sua cruz.
Aqueles divinos traços
de seu rosto de menina
foram-se tornando baços...
Aquela elegância fina,
que tinha, mesmo aos cinquenta,
precipitou-se na ruína.
Mas que brilho agora ostenta
essa cabeça nevada!
Novo, encanto se cimenta,
que é, sem dúvida, alvorada!
Cercam-na puros amores,
lábios que gritam por ela,
sinceros admiradores,
olhos a acharem-na bela,
em coro sempre a crescer
e a subir para uma estrela,
porque se eleva o seu ser
cada vez para mais alto,
mais alto no resplender...
Já não caminha no asfalto,
o Céu alcança num salto,
um coro de anjos a chama.
Tem hoje mais quem lhe diga
palavra ternas de amor
do que ouviu em rapariga.
Gravitam ao seu redor
- da esposa, da mãe, da avó -
o beijo, o riso, a flor,
Do risco de ficar só
ela agora não partilha,
tudo inspira menos dó.
Ao templo conduz a filha,
a noiva que vai casar;
E, com majestade, brilha,
respeitável, posta a par
do seu passado amoroso,
do seu distante sonhar.
Ante a aguardar receoso
da parturiente, no leito,
ela espera o intimo gozo
de achegar tranquila, ao peito,
um sadio e belo neto,
bem segura do seu jeito.
E, assim, um passo discreto
novo, fervoroso afecto.
É quando a idade lhe veda
continuar a ser fecunda
que, em vez de ingressar em queda,
sobe, cresce, alastra, inunda,
em rio, em mar, a família,
que, em sangue e amor se funda,
com jus a fervente homilia.
beberam amor e vida
estão agora homens feitos.
Foi o seu ventre guarida
primeira desses gigantes
agora em luta aguerrida,
em ânsia e sonho constantes
de acharem novos destinos,
mudados do que eram de antes,
dos seus tempos de meninos,
rebeldia e destinos.
Quanto amor, quanta paciência
e quanta luta e canseira
a dar-lhes independência,
desde a hora feiticeira
em que o filho vem à luz,
em que mostra a vez primeira,
à Mãe, que o toma nos braços,
bendizendo a sua cruz.
Aqueles divinos traços
de seu rosto de menina
foram-se tornando baços...
Aquela elegância fina,
que tinha, mesmo aos cinquenta,
precipitou-se na ruína.
Mas que brilho agora ostenta
essa cabeça nevada!
Novo, encanto se cimenta,
que é, sem dúvida, alvorada!
Cercam-na puros amores,
lábios que gritam por ela,
sinceros admiradores,
olhos a acharem-na bela,
em coro sempre a crescer
e a subir para uma estrela,
porque se eleva o seu ser
cada vez para mais alto,
mais alto no resplender...
Já não caminha no asfalto,
o Céu alcança num salto,
um coro de anjos a chama.
Tem hoje mais quem lhe diga
palavra ternas de amor
do que ouviu em rapariga.
Gravitam ao seu redor
- da esposa, da mãe, da avó -
o beijo, o riso, a flor,
Do risco de ficar só
ela agora não partilha,
tudo inspira menos dó.
Ao templo conduz a filha,
a noiva que vai casar;
E, com majestade, brilha,
respeitável, posta a par
do seu passado amoroso,
do seu distante sonhar.
Ante a aguardar receoso
da parturiente, no leito,
ela espera o intimo gozo
de achegar tranquila, ao peito,
um sadio e belo neto,
bem segura do seu jeito.
E, assim, um passo discreto
novo, fervoroso afecto.
É quando a idade lhe veda
continuar a ser fecunda
que, em vez de ingressar em queda,
sobe, cresce, alastra, inunda,
em rio, em mar, a família,
que, em sangue e amor se funda,
com jus a fervente homilia.
Porto, Portugal, Verão 1958
AVANTE!
A Humanidade ansiosa,
impaciente e nervosa,
acha noite tormentosa
este século presente.
Um futuro mais ridente,
uma vida mais formosa,
mais cómoda e luxuosa,
mais barata e bonançosa
- eis a visão cor de rosa
da Humanidade ansiosa.
Nessa ambição de progresso
(minha túnica de Nesso)
também eu não arrefeço.
Ao ideal me arremesso;
à Ciência tudo peço;
não sei andar ao avesso;
dos que param me despeço.
Amo a cidade brilhante,
o movimento constante,
ordenado e perturbante
da multidão ofegante.
Adoro a vida frenética,
a onde a corrente eléctrica
invisível e possante
arrasta o carro gigante
e pela noite horrorosa
espalha luz copiosa.
Desejo a velocidade
e tenho ânsias de altura
a serra orgulhosa e dura
e à fulgante claridade
que afugenta a noite escura
e policia a cidade.
Bendigo a locomotiva,
que marcha veloz a activa,
numa avançada festiva,
sobre a milha humilde e esquiva,
que nuns segundos cativa,
esmagando-a imperativa,
e logo acha despreziva,
deixando-a, a trás, fugitiva.
Exalto o braço colosso
do poderoso motor
no seu contínuo vigor
e inalterável esforço.
Exalto o braço colosso
do poderoso motor,
concepção de homens astutos,
de engenhos extraordinários,
que supre mil operários
e embaratece os produtos.
Deslumbra-se o avião,
elevando-se do chão;
com ele meus olhos vão
e também meu coração
a pairar na Imensidão.
Sobe mais minha razão,
meus sonhos mais subirão,
sobe mais minha ilusão.
Gente moça e aguerrida,
fresca e alegre Mocidade,
tem mil segredos a Vida,
porém não cesses na lida,
não quedes desiludida
de achar um dia a Verdade.
Não pares nem um bocado:
é pequena a Humanidade
e o Progresso ilimitado!
Nesta marcha de ansiedade,
estou sempre no meu peito
a febre de novidade
o sonho do mais perfeito.
Não pares nem um instante.
Marchemos! Avante! Avante!
impaciente e nervosa,
acha noite tormentosa
este século presente.
Um futuro mais ridente,
uma vida mais formosa,
mais cómoda e luxuosa,
mais barata e bonançosa
- eis a visão cor de rosa
da Humanidade ansiosa.
Nessa ambição de progresso
(minha túnica de Nesso)
também eu não arrefeço.
Ao ideal me arremesso;
à Ciência tudo peço;
não sei andar ao avesso;
dos que param me despeço.
Amo a cidade brilhante,
o movimento constante,
ordenado e perturbante
da multidão ofegante.
Adoro a vida frenética,
a onde a corrente eléctrica
invisível e possante
arrasta o carro gigante
e pela noite horrorosa
espalha luz copiosa.
Desejo a velocidade
e tenho ânsias de altura
a serra orgulhosa e dura
e à fulgante claridade
que afugenta a noite escura
e policia a cidade.
Bendigo a locomotiva,
que marcha veloz a activa,
numa avançada festiva,
sobre a milha humilde e esquiva,
que nuns segundos cativa,
esmagando-a imperativa,
e logo acha despreziva,
deixando-a, a trás, fugitiva.
Exalto o braço colosso
do poderoso motor
no seu contínuo vigor
e inalterável esforço.
Exalto o braço colosso
do poderoso motor,
concepção de homens astutos,
de engenhos extraordinários,
que supre mil operários
e embaratece os produtos.
Deslumbra-se o avião,
elevando-se do chão;
com ele meus olhos vão
e também meu coração
a pairar na Imensidão.
Sobe mais minha razão,
meus sonhos mais subirão,
sobe mais minha ilusão.
Gente moça e aguerrida,
fresca e alegre Mocidade,
tem mil segredos a Vida,
porém não cesses na lida,
não quedes desiludida
de achar um dia a Verdade.
Não pares nem um bocado:
é pequena a Humanidade
e o Progresso ilimitado!
Nesta marcha de ansiedade,
estou sempre no meu peito
a febre de novidade
o sonho do mais perfeito.
Não pares nem um instante.
Marchemos! Avante! Avante!
Sátão, 1919
A INJUSTIÇA
Todos pedem Justiça, todavia
o tesouro moral da Humanidade
sem a Injustiça não existiria.
O rio que transborda, a água que invade
os campos marginais, dano causando,
é que lhe dá verdor, fertilidade.
Só a Virtude tem realce quando
pecado ou tentação a põe à prova
e a pretende arrastar no seu comando.
Atirada a semente para a cova,
com lodo ou com adubo misturada,
nos dá a planta, uma promessa nova.
E se melhor exemplo se procura,
em Sócrates, Jesus ou Joana d'Arc
se vê logo a Injustiça de moldura,
ser compelido a violento embarque
se cicuta, na cruz, sobre a fogueira,
aquele que por justo ou sábio marque.
Se não fora o abismo a cachoeira
não se formava, não existiria,
nem a montanha era tão altaneira.
Convém rever esta filosofia.
Antes de condenar é bem preciso
achar o senso exato da harmonia;
de contrário, errareis vosso juízo.
o tesouro moral da Humanidade
sem a Injustiça não existiria.
O rio que transborda, a água que invade
os campos marginais, dano causando,
é que lhe dá verdor, fertilidade.
Só a Virtude tem realce quando
pecado ou tentação a põe à prova
e a pretende arrastar no seu comando.
Atirada a semente para a cova,
com lodo ou com adubo misturada,
nos dá a planta, uma promessa nova.
E se melhor exemplo se procura,
em Sócrates, Jesus ou Joana d'Arc
se vê logo a Injustiça de moldura,
ser compelido a violento embarque
se cicuta, na cruz, sobre a fogueira,
aquele que por justo ou sábio marque.
Se não fora o abismo a cachoeira
não se formava, não existiria,
nem a montanha era tão altaneira.
Convém rever esta filosofia.
Antes de condenar é bem preciso
achar o senso exato da harmonia;
de contrário, errareis vosso juízo.
Porto, Agosto de 1951
O MAR
Apenas fita em mim, o seu olhar
esse grande titã fero e despótico,
meu corpinho frágil e neurótico
tem toda a vida que ele vive, o Mar.
Força, poder, e o dom de adivinhar
me dá aquele singular narcótico.
E que ventura a desse amante erótico
que enleia a Terra num continuo amar!
A que heróica façanha o Mar me impele!
Venturoso de mim quando sou ele,
quando o meu peito as ondas sintetiza.
Meus ser a minha carne dolorida,
minha alma goza plenamente a Vida,
Que força colossal me hipnotiza!
30 de Outubro de 1912
ESCRAVIDÃO
Eu que a Liberdade tanto adoro,
Vivo por Ela e sempre Dela;
Que, só de imaginar venha a perde-la,
Derramo na minha alma intimo choro;
Eu que escutei, como celeste coro,
A voz, dos Ramas e dos Cristos, bela,
Eu cuja crença, cuja mente, vela
O seu altar onde, prostrando-me, oro;
Eu que lamento a mão fraca e indefesa
Contra qualquer humano despotismo,
Contra o poder até da Natureza;
Nasci para viver nesta ansiedade.
E, porque Nela, e sempre Nela, cismo
Sou escravo da mesma Liberdade.
Vivo por Ela e sempre Dela;
Que, só de imaginar venha a perde-la,
Derramo na minha alma intimo choro;
Eu que escutei, como celeste coro,
A voz, dos Ramas e dos Cristos, bela,
Eu cuja crença, cuja mente, vela
O seu altar onde, prostrando-me, oro;
Eu que lamento a mão fraca e indefesa
Contra qualquer humano despotismo,
Contra o poder até da Natureza;
Nasci para viver nesta ansiedade.
E, porque Nela, e sempre Nela, cismo
Sou escravo da mesma Liberdade.
OS PECADOS MORTAIS
I
SOBERBA
Soberba, orgulho, vaidade,
(chamam-lhe alguns presunção)
é cheia de magestade,
vazia de coração.
Soberba tem grande pança,
cara carrancuda e torta,
Soberba, cheia de chança,
de si apenas se importa.
II
AVAREZA
Avareza tudo quer,
se tem muito mais quer ter;
Com a vista arregalada,
Avareza não vê nada;
Põe-se a ouvir, a escutar,
e só ouve blasfemar;
Arrecada noite e dia
e acha sempre a arca vazia.
III
LUXÚRIA
Luxúria desvergonhada,
em impúdica atitude,
maneira a língua acerada
a difamar a Virtude.
Com rastejada paciência,
e o seu fito principal
é cativar a inocência,
conduzi-la para o mal.
Luxúria, filha infecunda
da Mentira e do Pecado,
saboreia a nódoa imunda,
ama o chão enlameado.
Pelas vielas impuras
a Luxúria se conduz,
mas sempre a horas escuras,
sempre a escapar-se da luz.
IV
IRA
Ira é atolada,
tem um focinho ferino,
grita por tudo e por nada,
fala sem jeito e sem tino.
O senso dela é um vime,
a sua agulha um punhal
afiado para o crime;
tem cadastro criminal.
V
GULA
Gula come, come, come,
mas por vício, não por fome;
de mastigar não descansa,
nem que tenha cheia a pança;
quando trata de entornar,
então bebe até tombar;
a mastigar e beber
é que ela sabe viver;
os seus dentes são os malhos
e as digestões seus trabalhos;
de seus feitos alardeia
se se senta à mesa alheia;
para comer do que gosta,
sempre a comer vence a aposta;
da Gula (cano de esgoto)
é a palavra o arroto.
VI
INVEJA
A Inveja é maldizente,
a todos chama canalha;
sua língua impenitente
é verdadeira navalha;
como nasceu torta e feia,
tem rancor à Formosura,
mas toda se pavoneia
e sobrepô-la procura;
até o próprio Talento
ela despreza e odeia,
porque todo o seu tormento
é não achar uma ideia.
VII
PREGUIÇA
Doença gera indolência
e a indolência a doença;
são da mesma parecença
e são a mesma na essência.
A preguiça não se lava,
na porcaria vegeta;
como o tempo a envergonhava,
espatifou a ampulheta;
é a viscosa minhoca,
que se arrasta e mal caminha,
para meter-se na toca
ou no papo da galinha.
Um dia, diz-lhe alma forte:
- «Preguiça, qual o teu mal?»
e ela, trágica e fatal,
responde-lhe: - «pouca sorte».
SOBERBA
Soberba, orgulho, vaidade,
(chamam-lhe alguns presunção)
é cheia de magestade,
vazia de coração.
Soberba tem grande pança,
cara carrancuda e torta,
Soberba, cheia de chança,
de si apenas se importa.
II
AVAREZA
Avareza tudo quer,
se tem muito mais quer ter;
Com a vista arregalada,
Avareza não vê nada;
Põe-se a ouvir, a escutar,
e só ouve blasfemar;
Arrecada noite e dia
e acha sempre a arca vazia.
III
LUXÚRIA
Luxúria desvergonhada,
em impúdica atitude,
maneira a língua acerada
a difamar a Virtude.
Com rastejada paciência,
e o seu fito principal
é cativar a inocência,
conduzi-la para o mal.
Luxúria, filha infecunda
da Mentira e do Pecado,
saboreia a nódoa imunda,
ama o chão enlameado.
Pelas vielas impuras
a Luxúria se conduz,
mas sempre a horas escuras,
sempre a escapar-se da luz.
IV
IRA
Ira é atolada,
tem um focinho ferino,
grita por tudo e por nada,
fala sem jeito e sem tino.
O senso dela é um vime,
a sua agulha um punhal
afiado para o crime;
tem cadastro criminal.
V
GULA
Gula come, come, come,
mas por vício, não por fome;
de mastigar não descansa,
nem que tenha cheia a pança;
quando trata de entornar,
então bebe até tombar;
a mastigar e beber
é que ela sabe viver;
os seus dentes são os malhos
e as digestões seus trabalhos;
de seus feitos alardeia
se se senta à mesa alheia;
para comer do que gosta,
sempre a comer vence a aposta;
da Gula (cano de esgoto)
é a palavra o arroto.
VI
INVEJA
A Inveja é maldizente,
a todos chama canalha;
sua língua impenitente
é verdadeira navalha;
como nasceu torta e feia,
tem rancor à Formosura,
mas toda se pavoneia
e sobrepô-la procura;
até o próprio Talento
ela despreza e odeia,
porque todo o seu tormento
é não achar uma ideia.
VII
PREGUIÇA
Doença gera indolência
e a indolência a doença;
são da mesma parecença
e são a mesma na essência.
A preguiça não se lava,
na porcaria vegeta;
como o tempo a envergonhava,
espatifou a ampulheta;
é a viscosa minhoca,
que se arrasta e mal caminha,
para meter-se na toca
ou no papo da galinha.
Um dia, diz-lhe alma forte:
- «Preguiça, qual o teu mal?»
e ela, trágica e fatal,
responde-lhe: - «pouca sorte».
MENSAGEM DE NATAL
Aos Amigos
Terra, pequena redil
perdido no Espaço Imenso,
onde o pastor mais gentil,
com aroma como incenso,
com o encanto de abril
na flor e fruto suspenso,
guia o seu grande rebanho.
Este divino pastor
doce e frágil como um anho,
cordeirinho encantador,
tem o poder mais estranho:
É menino e é o Amor,
Mas quebrando este poder,
vem loba matreira e velha,
insaciável no comer,
e leva um anho, uma ovelha,
o que mais lhe apetecer
e foge logo de esguelha.
Às vezes, vem alcateia,
no redil entra voraz
e vai de estômago cheia,
mostrando, pelo que faz,
que de engolir numa ceia
todo o rebanho é capaz.
Vem também o temporal,
e então com maior perigo,
que pode ser o final
do redil, frágil abrigo.
Linda barca «Firme Crença»
é uma realidade,
que perfura a névoa densa
deste mundo material,
entra em zona mais extensa,
pela esfera do Ideal,
ultrapassando as estrelas,
e acha o sobrenatural;
Domina e rasga procelas,
suavisa mágoas e prantos,
descobre regiões mais belas,
desliza em visões de santos,
divagações de poetas,
nos mais subidos encantos,
paira em êxtase de ascetas;
É vibrante,ansioso grito
das ambições mais diletas,
sede febril de Infinito.
Aqui vai, segue saudade
daquele tempo distante
da infância e da mocidade;
Aqui vai ânsia afagante
de sonho, de amor, de paz,
de impulso para diante,
daquela força primaz,
daquela firme confiança
que te segrega: - «acharás»;
daquela mão fina e mansa
que nos chama e nos conduz
e leva como criança;
daquela réstea de luz,
desse brinquedo trazido
pelo Menino Jesus;
de enlevo tão distraído
que das vaidades do mundo
não deixa entrar o ruído;
daquele viver profundo,
que penetra dentro em nós
e não sabe achar o fundo,
que invoca debalde a voz
- para saber onde resta -
dos falecidos avós;
daquela inocência em festa,
meigo sorriso sem véus,
sem um acúleo, uma aresta,
que nos diz: - «existe Deus
e dos males que te vêm
fará justiça nos Céus»
Deus seja louvado! Ámen.
Fria noite de Natal!
Velhinho com mais de cem,
de cem invernos! Que tal?
Acariciar os bisnetos...
a ideia não sabe mal;
vivem mais tempo os abetos
nas serras, ao vento e à neve,
entre as urzes e entre os fetos.
Pode ser. A vida é breve,
mas, quando Deus quer, até
o pesado fica leve!
O melhor é termos Fé.
Anda, chega-te à lareira,
àquela lareira que é
essa esperança fagueira
de divina claridade,
de beleza pura e inteira,
da Mansão da Eternidade.
Terra, pequena redil
perdido no Espaço Imenso,
onde o pastor mais gentil,
com aroma como incenso,
com o encanto de abril
na flor e fruto suspenso,
guia o seu grande rebanho.
Este divino pastor
doce e frágil como um anho,
cordeirinho encantador,
tem o poder mais estranho:
É menino e é o Amor,
Mas quebrando este poder,
vem loba matreira e velha,
insaciável no comer,
e leva um anho, uma ovelha,
o que mais lhe apetecer
e foge logo de esguelha.
Às vezes, vem alcateia,
no redil entra voraz
e vai de estômago cheia,
mostrando, pelo que faz,
que de engolir numa ceia
todo o rebanho é capaz.
Vem também o temporal,
e então com maior perigo,
que pode ser o final
do redil, frágil abrigo.
Linda barca «Firme Crença»
é uma realidade,
que perfura a névoa densa
deste mundo material,
entra em zona mais extensa,
pela esfera do Ideal,
ultrapassando as estrelas,
e acha o sobrenatural;
Domina e rasga procelas,
suavisa mágoas e prantos,
descobre regiões mais belas,
desliza em visões de santos,
divagações de poetas,
nos mais subidos encantos,
paira em êxtase de ascetas;
É vibrante,ansioso grito
das ambições mais diletas,
sede febril de Infinito.
Aqui vai, segue saudade
daquele tempo distante
da infância e da mocidade;
Aqui vai ânsia afagante
de sonho, de amor, de paz,
de impulso para diante,
daquela força primaz,
daquela firme confiança
que te segrega: - «acharás»;
daquela mão fina e mansa
que nos chama e nos conduz
e leva como criança;
daquela réstea de luz,
desse brinquedo trazido
pelo Menino Jesus;
de enlevo tão distraído
que das vaidades do mundo
não deixa entrar o ruído;
daquele viver profundo,
que penetra dentro em nós
e não sabe achar o fundo,
que invoca debalde a voz
- para saber onde resta -
dos falecidos avós;
daquela inocência em festa,
meigo sorriso sem véus,
sem um acúleo, uma aresta,
que nos diz: - «existe Deus
e dos males que te vêm
fará justiça nos Céus»
Deus seja louvado! Ámen.
Fria noite de Natal!
Velhinho com mais de cem,
de cem invernos! Que tal?
Acariciar os bisnetos...
a ideia não sabe mal;
vivem mais tempo os abetos
nas serras, ao vento e à neve,
entre as urzes e entre os fetos.
Pode ser. A vida é breve,
mas, quando Deus quer, até
o pesado fica leve!
O melhor é termos Fé.
Anda, chega-te à lareira,
àquela lareira que é
essa esperança fagueira
de divina claridade,
de beleza pura e inteira,
da Mansão da Eternidade.
Porto, Portugal, Ano Santo de 1950
MODERNO
A Artur Gonçalves
à sua memória
Só o que é eterno
será moderno
hoje e amanhã
e é obra sã.
No sítio fica,
jaz de repente
quem edifica
para o presente
----------------------------------
Só trabalhando,
mesmo sonhando,
para o futuro,
se tem seguro
o ideal tesouro,
o fruto loiro!
à sua memória
Só o que é eterno
será moderno
hoje e amanhã
e é obra sã.
No sítio fica,
jaz de repente
quem edifica
para o presente
----------------------------------
Só trabalhando,
mesmo sonhando,
para o futuro,
se tem seguro
o ideal tesouro,
o fruto loiro!
Guarda, Portugal, 1943
O CLAMOR D'OS SEM TRABALHO
As fábricas encerradas,
Fechadas as oficinas;
Só estão escancaradas
As mil bocas pequeninas,
As mil bocas adoráveis,
Dos filhos dos miseráveis!
É o trabalho um dever
A que o Homem foi sujeito?
Nós julgamo-lo um direito,
Qual será maior pesar:
Pedir pão e não ter,
Ou não ter onde o ganhar?
Share
Fechadas as oficinas;
Só estão escancaradas
As mil bocas pequeninas,
As mil bocas adoráveis,
Dos filhos dos miseráveis!
É o trabalho um dever
A que o Homem foi sujeito?
Nós julgamo-lo um direito,
Qual será maior pesar:
Pedir pão e não ter,
Ou não ter onde o ganhar?
Share
O MEU PAÍS
Quero país
Flor-de-liz;
Democracia
De fidalguia;
Povo lavado
E penteado;
Cidadão
Cristão
Homem irmão,
Filho de Deus,
Anjo dos céus;
Habitação,
Um coração,
Conchego e amor,
Embalo e flor;
Piso
Liso;
Rua de luz,
Que conduz
Aos Largos da Saúde,
Da Força e da Virtude;
Cidade
Mocidade;
De beleza
E movimento
Sem tormento;
União
Acção,
Coordenação;
A apologia
Da harmonia;
Tudo a girar
No seu lugar.
Flor-de-liz;
Democracia
De fidalguia;
Povo lavado
E penteado;
Cidadão
Cristão
Homem irmão,
Filho de Deus,
Anjo dos céus;
Habitação,
Um coração,
Conchego e amor,
Embalo e flor;
Piso
Liso;
Rua de luz,
Que conduz
Aos Largos da Saúde,
Da Força e da Virtude;
Cidade
Mocidade;
De beleza
E movimento
Sem tormento;
União
Acção,
Coordenação;
A apologia
Da harmonia;
Tudo a girar
No seu lugar.
POLÍTICOS
O ladino do polvo toma a cor
Da pedra, areia, ou lodo, em que se deita,
A fim de conseguir, assim, melhor
Caçar a presa que escondido espreita.
Quando ela passa, longe da suspeita,
Esperto, como um tímido traidor,
Na água negro líquido ele deita
Que cega a presa e esconde o caçador.
Políticos também em Portugal
Há que mudam de cor perfeitamente,
Sem quase meio mundo dar por tal.
Mas, quem tem uma vista regular
Está a vê-los por aí continuamente
De olhar atento à cata de um lugar.
Da pedra, areia, ou lodo, em que se deita,
A fim de conseguir, assim, melhor
Caçar a presa que escondido espreita.
Quando ela passa, longe da suspeita,
Esperto, como um tímido traidor,
Na água negro líquido ele deita
Que cega a presa e esconde o caçador.
Políticos também em Portugal
Há que mudam de cor perfeitamente,
Sem quase meio mundo dar por tal.
Mas, quem tem uma vista regular
Está a vê-los por aí continuamente
De olhar atento à cata de um lugar.
O MEU VARINO
Ao Dr. Francisco Ferreira Neves
Gabão, varino de Aveiro,
quase sexagenário,
tem sido meu companheiro,
com vigor extraordinário;
O alfaiate Gafanha,
autor do risco e do corte,
deu-lhe rigeza tamanha
que tarde verá a morte;
Estaria como novo,
se não surgisse a desgraça,
o descuido, que reprovo,
de defende-lo da traça;
Acalenta tronco e pernas,
é completo agasalho;
Protege cabeça e rosto,
a ser cantado tem jus,
a ser em relevo posto,
seu altaneiro capuz.
Que boa fazenda aquela,
já se não vê no mercado!
Não entrava a chuva nela,
nem o vento mais danado!
Ficou por onze mil réis,
nos tempos que já lá vão,
em que eram outras as leis,
o meu valente gabão.
«Precisa o senhor Roberto»
disse o Diretor, com tino,
para meu Pai, e deu certo,
«de abrigar-se num varino».
Ele deu esta sentença
justa e muito sensatamente,
porque de séria doença
me achava convalescente.
Agora está interdito
vir à rua em tal farpela,
pois o carro maldito
quer pressa, tudo atropela.
Mas em casa, no sossego
que não tem tal destino,
me agasalho, me aconchego,
me envolvo no meu varino.
Gabão, varino de Aveiro,
é trajo tradicional
e português verdadeiro
mas do antigo Portugal.
Meu gabão dos tempos idos,
dos tempos de colegial,
estamos envelhecidos,
fora da moda, afinal!
Porto, Portugal, Maio de 1963
Subscrever:
Mensagens (Atom)
