Roberto Eduardo da Costa Macedo, nasceu em Santo Tirso, em 14 de Julho de 1887 e faleceu a 19 de Julho de 1977 no Porto.
Filho de Eduardo da Costa Macedo e de Anastácia Cristina de Azevedo Sanches. Casou com Ana Coelho Hargreaves. Narrou histórias, fez poemas e poesias. Publicou vários livros em prosa e verso, os quais alguns serão citados aqui...

O MEU SORRISO

O Poeta passou por mim um dia
e perguntou porque sempre sorria

e eu respondi-lhe... respondi sorrindo
e, moço e sonhador, fui prosseguindo.

Passou o tempo... e o Poeta faleceu
e o meu cabelo loiro embranqueceu;

mas hoje em meu ouvido ressoou
essa pergunta que ele formulou.

Será acaso permitido ao velho
rever-se olhando o seu antigo espelho,

outra vez moço?

 A aurora vespertina
tem o rubro clarão da matutina;

nem a rosa da linha Primavera
sobre a do Outono em cor e graça impera;

e o sonho, o amor, a fé, a ansiedade
são sentimentos que não têm idade.

Mas, Poeta amigo, em que pensava eu?
Naquilo que tu pensas lá no Céu.

Viste por ti passar sorrindo um anjo
da Terra estranho a todo o humano arranjo,

a todo o humano arranjo cá da Terra
agora em fúria, em truculenta guerra.

Vê: - Nero e Tigelino num braseiro
acabam de lançar o Mundo inteiro

------------------------------
E eu pensava, que viria
bem cedo aquele prometido dia

em que os homens deviam dar-se as mãos,
trocar-se as mãos, amar-se como irmãos,

dessa aliança purpurina e sã
que se desenha na visão cristã.

E eu pensava estar certo de que a esfera
é mais veloz e forte do que a fera;

que na alavanca há menos valimento
do que no bem polido rolamento;

que melhor cura a chaga o emoliente
do que a tenaz em brasa, o ferro ardente;

que a palavra de amor, sendo bem dada,
quebra a lança, o punhal e vence a espada;

que os impérios da força duram pouco,
são máquinas forjadas por um louco,

pois a razão equilibrada guia
dentro das sábias regras da harmonia,

não marcham em estampidos de revolta,
sem fé, com desatino, à rédea solta;

em doce e progressiva evolução
é que se lança a nova construção.

--------------------------------
E apesar das agruras do presente,
mantenho, no meu peito, renitente,

o sonho antigo... e, com fervor, insisto
em crer na bela previsão de Cristo.


Eis, Poeta amigo, como te preciso
o motivo, a razão do meu sorriso.


À memória de António Sardinha

DESEJADA




Tens sido para mim somente a Desejada,
pois nunca a minha face aproximei da tua.
O meu amor ideal é a luz da Luz,
da Lua que ilumina e não aquece nada.

Apenas surges tu - visão etérea, alada,
na sombra que me cerca, inteiramente nua,
a luz do teu olhar sobre a minha alma actua,
deixando-a de visões e sonhos povoada.

Nudez que ninguém mais descobre ou adivinha!
Nem sabes tu, meu Bem, com quanto ardor te quero,
sabendo que és só minha, e toda, toda minha.

E nunca a tua carne em minhas mãos agarro!
- É porque Deus (vê lá que belo sonho gero!)
Não soube traduzir, minha visão, em barro.

Parabéns, Isabel Porto

Meio século, minha amiga,
Cinquenta anos, dispostos;
Com cor, alegria e magia,
Sonhos feitos e desfeitos

Hoje és cinquentenária.
Madura, experiente;
Solucionarás astutamente,
os problemas de forma feiteira.

Isabel, mais décadas te esperam;
É bom sermos amigos ligados.
Novos obstáculos te espreitam;
Ao teu lado estaremos encostados.

Desejamos-te para esta nova etapa,
o maior sucesso e sorte na vida
e um lustre radioso para a tua nova estrada;
Muitos Parabéns, nossa Amiga querida.

Porto, dezembro 2015
Teresa e Alberto Costa Macedo

A CRIANÇA

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

A música de um rádio esvai-se da taberna,
espalha-se na rua estreita e mal calçada;
é compasso, talvez, de uma dança moderna,
talvez ária de amor, febril, apaixonada.

Com dois anos ou três, vestida cor de rosa,
de bracinhos ao ar, uma menina dança,
tão linda, tão gentil, tão pura, tão graciosa,
que toda a gente pára a mirar-se na criança.

O seu corpo volteia, os seus braços são asas,
seus pequeninos pés estão pisando flores,
em roda surge, em vez das mais humildes casas,
parede palaciana embriagante de cores.

Esta criança transforma a pobreza em riqueza,
adoça alegremente aquele ambiente triste,
o que é sórdido morre ante a sua pureza,
só ela, ela somente, ali impera e existe.

Ao som daquele rádio, a criança ingénua e calma,
dançando, nos conduz ao sobrenatural,
a ser apenas sonho, a ser apenas alma,
a viver para além de este mundo mortal.

Já não se escuta a rádio, a música é divina;
a taberna sumiu-se, há um portal do Céu;
é um Anjo-de-Deus a forma menina;
da sideral mansão, até ali, desceu.
Porto, Estio de 1959

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

AO ROBERTO MACEDO


R essaltam de teus poemas
Ó poeta consagrado!
B eleza - , graças amenas -;
E ao contares o teu passado,

R evelas o que hás sofrido
T rovador de canções belas!
O sentir do que hás perdido!
M as eu vejo em todas elas,

A is dum Amor que inda dura,
C antares alegres -, dispersos -,
E entre afectos e ternura.
D eixas ver em lindos versos,

O que hoje é, tua ventura
JAZELINO

ESPIRITO MOÇO

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

Duas meninas de outras eras,
que outrora foram primaveras,
passam por mim garridamente,
rindo e pensando, certamente,
que este rapaz do tempo delas,
freme de amor ainda ao vê-las!
Todas janotas e pintadas,
são juventudes simuladas.

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

Mas eu, que as tinha já na cova,
estou a olhar para uma nova,
fresca e formosa rapariga,
que vai passando e não me liga.
Canta cá dentro a voz do poeta,
meus olhos têm senso de esteta,
oiço trinar o rouxinol,
me acaricia a luz do Sol,
nada me doí, ando ligeiro,
tenho no bolso algum dinheiro.

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

Como  ainda fremo! E a ilusão
acelerou meu coração!
Eis chego a casa e olho o espelho:
Meu Deus! Meu Deus, como estou velho!
Diz-me uma voz consoladora:
- «NOVO POR DENTRO, VELHO POR FORA».
Porto, 19 de Setembro 1950

MEU AMOR

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

Em negra noite eu era mergulhado
e no meu peito ia um pesar profundo,
Então, buscando o Sol ambicionado,
fui-me, a correr, a dar a volta amo mundo.

Porém depressa me encontrei cansado,
roto e faminto como um vagabundo,
até cair descrente e desmaiado
inutilmente sobre o chão imundo.

Vendo-me alguém naquele desconforto,
havia de supor que me ferira
algum bandido e me deixara morto.

Mas, quando meu desmaio teve fim,
eu vi, olhando o Céu cor de safira,
que a boa luz do Sol vinha até mim.

O FADO DOCE ENGANO

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

Canta, canta, canta, canta,
o cantar rejuvenesce:
é cantando que se espanta
a tristeza, que envelhece.

Que vá tua alma elevada
por nuvens da fantasia,
em Céu de rósea alvorada,
em asas de alava poesia.

Sonhando, a capa e batina
enverga, volta aos «gerais»,
recorda-me essa menina
outrora dos teus ideais.

Esta palavra «gerais»
está dizendo irmandade,
que fomos todos iguais,
cursando a Universidade.

Todos moços, todos belos,
de passo rijo e seguro,
todos erguemos castelos,
mirando loiro futuro.

Na minha alma, fazer ninho
veio a pomba da saudade,
sonhei seguir o caminho
de regresso à mocidade.

à «Porta Férrea» te espero,
moço cheio de ambições,
sou João de Deus, sou Antero,
sou o Luís Vaz de Camões.

A «Porta Férrea» é açude
da ribeira estudantil,
do rio da mocidade,
do rio de luz de Abril.

vive em permanente enredo
quem tudo e nada receia...
da bomba atómica o medo
não perturbe a tua ideia.

Estou em crer que não erra
Jean Cassou, que anuncia
que de novo até à Terra
os poetas virão um dia.

Dedilha, Xico Menano,
na tua esbelta guitarra,
«O Fado do Doce Engano»
a que nossa alma se agarra.

E arranja-me um cantador,
com garganta e sentimento,
que às palavras dê calor
e as eleve ao Firmamento.
Porto, Junho de 1964

OS MEUS VERSOS

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

Os meus versos não são meus!
São um fio delgadinho,
Mais fino que o fino linho,
Da inteligência de Deus!

Sou o espelho unicamente:
Colho a imagem fulgurante
de estrela, de sol ardente,
Milhões de léguas distante.

Como, no búzio, cantando
Vem o mar, seu cavo grito
Anda talvez silabando
Em mim a voz do Infinito.

A frágil haste do trigo
Vibrou ao passar o vento;
Sucede o mesmo comigo.
Sacode-me o pensamento.

Ando, às vezes, distraído
E a ideia sorrateira
Vem-me achar de que maneira!...

E quando os meus versos traço
E os assino, como autor,
Reconheço que não passo 
De receptor-transmissor.

Surge na várzea rasteira
Seara em verde lençol;
E cresce e fica altaneira
E quem a ergueu foi o Sol.

Até ao fundo covil
Do coração mais lapuz
Chega o hálito de Abril,
Vai uma réstia de luz.

O que somos, nesta vida,
Nós o devemos a Alguém
E passamos, de corrida,
Do além para o Além.



CHEIA DE GRAÇA

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

I
Pelo sincero amor que me consagras,
tu és formosa e a todas preferida.
Basta que eu tome essas mãozinhas magras,
para que sejas trémula e vencida.

Mais que eu padeces minhas horas agras,
só vives a pensar na minha vida.
E com tantas virtudes tu me sagras,
que subo a perfeição nunca atingida.

Sei bem que às outras cedo a formosura
as deixará. Porém tua amizade,
se nos der vida Deus, tenho-a segura.

Confia unicamente quem perdoa.
E só perdoa, na totalidade,
quem, como tu, Mulher, é meiga e boa.

II
Tombei do meu cavalo, Batalhando.
É, preso por um pé a um estribo,
me vai ele a galope ainda arrastando.
Todos os sonhos de viver derribo.

Naquele sofrimento formidando,
meu próprio sangue entre a poeira libo
e, entre tanto sofrer, ia pensando:
«Ai, meu Amor, que nunca mais arribo!»

Salvei-me por acaso. O rosto horrendo,
braços partidos, crânio sem cabelo
do meu desastre enorme vão dizendo.

Quantos me vêem fogem com horror.
só para ti, Mulher, ainda sou belo.
Não decresceu em nada o teu amor.

III
Sentada junto aos pés da minha cama,
choravas tu, julgando que eu morria;
pois tinham dito médicos de fama
que certamente não escaparia.

Meu corpo ardia em febre que era chama!
E os olhos só a muito custo abria;
porém (fina meiguice de quem ama)
vi-te sempre um sorriso de alegria.

Para não suspeitar da gravidade
do meu estado, vendo-te chorar,
sorrias...mas sofrendo na verdade.

Nem calculas, Mulher, que imenso agrado
me dá lembrar o teu sorriso santo,
esse sincero choro sufocado.

IV
Ceguei. E, desde então, sem ver teu rosto,
senti nascer em ti novas belezas.
Descobri novo, imenso encanto posto
nesse metal de voz em que me rezas.

Palpando as tuas mãos, vivas surpresas,
nova fortuna achei para meu gosto.
- Olhai: A treva como tem riquezas,
que vós não compreendeis, oh, não, aposto!

Um, sol de cá de dentro me ilumina.
Diviso e cinjo a graça etérea, alada,
que nunca a luz do dia descortina!

Com a doce e gentil realidade
com que te via outrora, minha amada,
agora sei olhar tua amizade.

V
Quem diz que é cego o amor vilipendia.
Ele é artista de alta inspiração.
Desenha e esculpe, à luz, em pleno dia,
o encanto, o elenco, o sonho, a sedução.

Em ti, Mulher, há divinal magia,
doce atrativo que não tem irmão:
- A luz que de mim mesmo se irradia,
o sol do amor, o fogo da ilusão.

Doce mentira ou mística verdade,
do peito mais gelado conhecida,
é a chama de amor, que nos invade.

Acredita, Mulher, é isto assim:
Para que sejas bela nesta vida,
basta que tu sejas para mim.
Santo Tirso, 1916
[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

O ARTISTA

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

Capitalista
de sentimento
e pensamento
- eis o ARTISTA
viva ambição
de execução
com materiais
de seus ideais
é a tortura
em que se apura
Sonhar, achar,
amar, criar
é a aventura
que ele procura.
É na oficina,
dessa alma fina,
que, noite e dia,
com alegria,
que amor ateia,
se lavra a Ideia.
Fafe, 1940

AMOR CONJUGAL

Aquela que diviso nos meus sonhos,
que desenho de cor, de olhos fechados,
que foi meu par nos dias mais risonhos,
que nunca me deixou nos desolados,

Aquela que esperei como Jacob,
nos moldes ao sabor do meu ideal,
graças à qual não fui, no mundo, só,
sem um amor ao meu amor igual,

Aquela que anda tão ligada a mim,
como anda a terra devotada ao mar,
a ponto de fusão, formando, assim,
o globo, o todo, aquilo que era par,

Aquela cujo corpo ao meu lado unido,
é astro global procriador,
de luminosa auréola revestido,
atmosfera de sonhos e de amor,

Jamais de mim, nem só por um momento,
será de corpo ou de alma separada,
enlaça-nos o mesmo pensamento,
percorrer, no Infinito, a mesma estrada.

Quando a cinza dos corpos for misturada,
em que não possa já haver destrinça,
errarão nossas almas pela altura,
campo que Eterno Deus de estrelas inça.
Vila do Conde, Julho de 1967

VENUS IMACULADA

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

Rompi-lhe as vestes negras, abafadas,
primeiro o cisne colo desnudando
e logo os ombros de contorno brando
e o seio casto e as pomas delicadas...

Lembravam minhas mãos as Madrugadas,
quando o noturno manto vão rasgando;
e como é bela e pura a Lua quando
se mostra nua às Noites recatadas!

Assim a Terra é pelo Sol despida;
não há pecado nos milhões de beijos,
beijos de luz que despertam nela a Vida.

É puro o pólen que fecunda a flor;
são sempre imaculados os desejos,
se existe neles verdadeiro Amor.
Coimbra, Junho de 1911

A MENTIRA

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

Com seus pomposos vestidos,
mentira parece um astro
dos mais esclarecidos
e, contudo, tem cadastro;

Tem tal arte a feitiçaria,
tão bem se pinta e afina,
parece ingénua menina.

Se for preciso discurso
sobre importante matéria,
Mentira vem ao concurso
com ar de «senhora séria»;

mas também se não atriga,
se lhe convém a maneira,
de usar navalha na liga
e pistola na algibeira.

Este jeito tão agudo
tornou-a célebre atriz:
Mentira se presta a tudo
e em tudo mete o nariz.

Verão a fé que ela inspira,
afirmando à gente nova
que se engana, que é mentira
o que Mentira reprova.

Digam lá ao poderoso,
a quem ela lisonjeia
e cativa e traz baboso,
que seja a Mentira feia!

Se lho dizeis, sois corridos,
alcunhados de intrigantes,
de patifes, de vendidos,
de pandilhas, de tratantes.

Mentira, Calúnia, Intriga,
Lisonja ou Hipocrisia
são capas em que se abriga,
mantos com que se atavia.

A Mentira é cadastrada,
usa vários apelidos,
sempre bem caraterizada,
sempre a mudar de vestidos!

Tem modos de regateira,
usa navalha na liga
e pistola na algibeira?
É a Calúnia, A Intriga;

Vem de carinha de santa,
de voz meiga e fala pia
e de ternura que encanta?
Chama-se a Hipocrisia.

Mentira sabe viver,
com jeito viver procura;
é amante do Poder
e dá o braço à Fartura.

Mentira tira partido
do seu engenho matreiro,
tal como o lobo vestido
com pele de cordeiro;

É coxa, se ouve dizer,
mas, quando se põe a andar,
nem sempre, mesmo a correr,
ela é fácil de apanhar.

Lá vem um dia a Ciência,
de imortal tenacidade
e de invencível paciência
e proclama a Verdade.

Muitas vezes a Verdade
mora nos mais altos Céus,
não desce à Humanidade,
é privilégio de Deus;

Então aí a Mentira,
achando-se sem rival,
traça, volta, risca, gira,
orgulhosa e triunfal.

Mentira diz triunfante:
«Mentira existe, logo há-de
(Mentira comediante!)
ser a Mentira...Verdade».

Mentira consome a vida
a fingir ser a Verdade
é como mulher perdida
a aparentar castidade.

Mentira toda se vira,
Mentira toda se ajeita,
Mentira toda se enfeita,
mas fica sempre Mentira.

Mentira toda taful,
Mentira toda aparência
é de incógnita ascendência
e afirma ter sangue azul.

Se acaso lhe perguntais,
ao vê-la passar ligeira:
- «Ó Mentira, onde é que vais?»
responde toda lampeira:
- «Vou a casa de meus pais».

Tem sete filhos Mentira,
filhos bem originais;
Estes filhos da Mentira...
...são os pecados mortais.


[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

ZERO

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

Quero,
gero,
mando,
impero,
vou somando
e acho: - ZERO
..........................
..........................
Zero, ovo,
mundo novo,
ventre que gera a unidade,
fonte de toda a verdade,
ponto fiel da balança,
equilíbrio, temperança.

ANSIEDADE

[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

No verde Mar se Retratava a Lua;
profundamente dentro dele andava
a imagem dela branca e linda e nua,
tal qual o Mar, decerto, a desejava.

Embora no seu intimo a possua,
a julgue presa como fiel escrava,
não sará daquela febre sua,
daquele amor candente como a lava.

Ondas se elevam como doidos braços,
buscando a viva carnação amada,
mas só palpando o Nada nos espaços.

Ah, pobre Mar, que triste drama vejo:
Ela a fugir de ti morta e gelada,
tu cada vez doido de desejo!

A História mais Bela e mais Sombria

De família modesta, sem dinheiro,
casou-se com humilde carpinteiro.

E tão pobre ficou este casal
que nasceu o seu filho num curral.

O berço deste foi a manjedoura
onde comiam a jumenta e a toura.

De palha solta deram-Lhe o colchão
como se fora a uma ovelha ou cão.

Nunca, até agora, mais modesto abrigo
se dispensou para qualquer mendigo.

Mas este quadro de miséria extrema
é um canto de amor, um doce poema.

Não é por ser nascido num castelo
ou em palácio que se nasce belo

ou que se tem o génio ou o talento,
iman na voz, o sol no pensamento.

A simpatia, a graça, a formosura,
dons afectivos, candidato, ternura,

não fazem privilégio de alta roda,
das damas da nobreza e grande moda.

Dessa pobre Mulher do humilde povo
nasce um Menino que é o Mundo Novo,

a ideia nova, a redenção, a aurora,
a luz do amor, a voz libertadora.


Logo ao nascer era de maravilha


toda a expressão que no seu modesto leito
o crê predestinado a grande feito.

Tanto correu e se espalhou a fama
que até os Reis de muito longe chama

e também veio vê-Lo pressuroso
o tirano, o soberbo, o invejoso,

que logo acharam, para si, perigo
no mísero curral, no humilde abrigo;

que logo, tendo em conta seu regalo,
ao Menino, planearam de matá-Lo,

Mas esta pobre Mãe, triste plebeia,
para o seu Filho todo o mal receia;

Da visita dos maus Ela adivinha
o fim, o vil intuito que continha;

E resolve fugir... espera a noite,
sombra que tudo esconda, onde se acoite;


Numa jumenta cavalgando vai,
com o Filhinho ao colo, aquela Mãe,


levando ao lado atento caminheiro,
como zeloso guarda, o carpinteiro.

Procuram os caminhos mais escusos,
apavorados, trémulos, confusos,

e só pararam atingindo o alvo,
o seu Menino Amado ver a salvo,

quando chegaram a outro país amigo,
onde encontraram protecção e abrigo.

----------

E o Menino cresceu e correu Mundo
e mais cresceu o seu saber profundo,

pois ainda criança aos mestres espantava,
com as sábias respostas que lhes dava.

----------

A Força avassalava a maioria,
o povo, a multidão, tudo sofria;

O Senhor tinha mando e privilégio,
e dava e transmitia o poder régio;

Filho de escravo era também escravo,
que podia espremer-se como um favo,

amoldar-se à vontade do senhor,
sem compaixão, sem atender à dor;

O idolatra da força estava em voga,
era o carrasco que vestia a toga.

-----------

Então Esse de humilde nascimento
começou a pregar seu pensamento.

Era belo e incisivo no dizer,
quem o escutasse era incitado a crer.

Discípulos, em breve, conquistava,
sua doutrina mais se propagava.

O sofredor, o pobre, o deserdado
achavam maravilhas no Seu brado.

O tirano, o soberbo, o invejoso
também veio escutá-Lo pressuroso.

Ele exaltava o humilde, o que sofria;
o império de Seu Pai lhe prometia.

Pregava o amor a Deus, Seu Pai Celeste,
e se exprimia sempre em nome Deste:

«Quem não amar, na terra, o semelhante
ofenderá Meu Pai, no mesmo instante»

----------

E a Mãe no Filho toda se revia,
mas o tirano não adormecia

e novo susto, nova dor a espreita;
ele prepara-lhe a feroz receita:

Entre os amigos de O que prega o Amor,
descobre, encontra o réptil traidor.

O beijo duma boca envenenada
foi o primeiro gesto da cilada.

O beijo denuncia, identifica,
depois surge a chicana, a fraude, a trica;

esbirros são armados em juízos,
a decisão do arbítrio quer raízes,

quer dar-se à burla aspecto de decência,
o traficante joga na aparência.

A causa de principio está julgada,
em bastidor foi a sentença dada,

se pinta a Via Sacra e o Calvário
para servir de fundo no cenário.

A trama urdida só a um fim conduz,
a que se pregue o Justo sobre a cruz.

Aquele que somente amor exprime
se acusa e culpa do mais negro crime;

a gente rica, bem tratada e nédia
nem sequer se apercebe da tragédia;

o povo ladra, no seu louco engano,
cão assolado, a soldo do tirano;

com medo dos terrores, dos castigos,
apavorados fogem os amigos.

Só Ela fica, sem receio a nada,
quer com o Filho ser crucificada.

----------

A Igreja, velha, sábia e previdente,
todos os anos, infalivelmente,

grita ao rebanho, chamar-lhe à memória
essa tragédia, essa sombria história,

pois nela vive o sentimento amargo
de que anda o lobo farejando ao largo;

para evitar o assalto do inimigo
que é bem preciso reforçar o abrigo,

manter, para o combate ao malefício,
espírito de heroísmo e sacrifício,

se for preciso, transportar a cruz,
saber nela morrer, como Jesus!

----------

A Mãe que mais amou e mais sofreu,
ao Filho inteiramente consagrada,
em nuvens de almas se elevou ao Céu,
ao som de hinos de Glória e de Alvorada.

Humilde, frágil, filha de plebeu,
com simples carpinteiro era casada,
curral foi a morada onde nasceu
a Vida que Ela viu crucificada.

Atingiu da beleza a plenitude:
Pela escada subiu do sofrimento
ao vértice do amor e da virtude.
Nunca existiu amor tão vivo e atento!
Mães, que supondes vossa empresa rude,
eis montanhas de fé, rios de alento!
Porto, Abril de 1955
---------------------
A HISTÓRIA MAIS BELA E MAIS SOMBRIA foi enviada a Sua Santidade o Papa Pio XII, do que resultou:
A SECRETARIA DE ESTADO DE SUA SANTIDADE
cumpre o honroso dever de comunicar que o Santo Padre recebeu com prazer a devotada homenagem acompanhada de expressões de filial veneração pela Sua Augusta Pessoa e, como testemunho de Sua Benevolência, concede de todo o coração a Bênção Apostólica.

Vaticano, 28 de Dezembro de 1955

Ao alto, sob o brasão, lê-se «SECRETARIA DI STATO DI SUA SANTITÁ»

----------------------
No envelope lê-se Ex.mo
Roberto Macedo
Rua de Oliveira Monteiro, 823 - PORTO

Ao cimo, vem colado selo postal de 160 com os dizeres:
«POSTE VATICANE» - «745 - 1954 - S. BONIFÁCIO - 
APOSTOLO DELLA GERMANIA
Este selo é inutilizado como dois carimbos com data de 28-12-955 e os dizeres: «POSTE» «DEL VATICANE»



CAMÕES - Filho de Ana Sá e Macedo



Eduardo da Costa Macedo - CAMÕES, filho de Ana Sá e Macedo from Arq. Alberto Costa-Macedo

LUÍS VAZ CAMÕES
Filho de Ana Sá e Macedo

I
Naquela Alma pura e rutilante
Guiada pelos ventos do destino
Havia um Sonho lúcido divino
Com um eco d' amor - harpa distante.

Já ouvia cantar ao longe o hino
Sagrado do futuro; o triunfante
Chamava à sua pátria - a sua amante,
Lendo o céu como um livro sibilino.

Entre no Paço e a nova luz o banha
De uns olhos fulgurosos, luz estranha
Que lhe torna felizes os seus dias.

Não há ainda no azul um traço escuro:
Como é belo sonhar... ver o futuro
Banhado de clarões e de harmonias!

II
Ele saúda o Sol - Astro Bendito
No meio dessa  lúcida grandeza
Que rege do seu trono a Natureza,
Tendo o poder em toda a parte escrito.

E sobre o mar, sonhando nova empresa,
Se a saudade lhe leva o peito aflito,
Acompanha-o das ondas fundo grito
E a Lua no seu manto de tristeza.

Voltam-lhe então dulcíssimas visões:
Começa a inflamar-se a alma de Camões
Inspirada no poema universal.

Eis por fim em seu livro a nossa gloria:
Já que o deixou morrer entregue à História.
Erga-o e celebre-o hoje Portugal.
POEMA
 DE
EDUARDO DA COSTA MACEDO
PARA AS
FESTAS DO 3 CENTENÁRIO DE CAMÕES
Homenagem dos POETAS
Palácio de Cristal
Porto, 27 de Março de 1880
PORTUGAL

CANTIGAS






















[Obra de Teresa Lobo da Costa Macedo]

Cantigas,
quero cantigas,
que não contenham cicuta,
que não mordam como ortigas,
que me não lembrem a luta,
a labuta
dos duros dias da vida
com seio que não coite
aquele afã,
essa lida,
que vai de manhã
à noite.
Quero romance risonho
quero cantigas de amor,
quero cantigas de sonho,
quero cantigas em flor.
Poesia escrita, possivelmente,
entre 1930-1940